terça-feira, 9 de setembro de 2014

Lampejo

Acabei de revisar esse trecho aqui:

"A consciência é sempre infeliz. [...] Trata-se de uma falta, uma carência, no sentido da Fenomenologia do espírito. A consciência é a tentativa de repor essa falta. A tragédia da consciência é: quanto mais ela sabe, mais ela quer saber."

Ou seja, quanto mais se sabe, mais infeliz?! Acho que é bem por aí mesmo. Porque refletir dói. Pensar dói. Ter consciência, então... Pessimismo? Pode ser, embora todos esses fatores convirjam em um anseio por mudança. [E mudar também pode doer, mas antes a dor da mudança do que a dor de ter a consciência de que não mudou.]

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Em dívidas com este Fustigo

Estava devendo várias fustigadas desde a última postagem, no final do ano passado. Na verdade, estava ME devendo escrever por aqui. Faltou tempo, faltou estímulo, faltou vontade; mas não faltou coisa para dizer por aqui. Nem sei por onde começar.

Da minha última postagem de verdade, há um ano, muita coisa aconteceu.

  • Me tornei "Mestre em Língua Alemã" em 1º de abril [parece mentira, mas é a pura verdade], depois de 3 anos de muita ralação, euforia, disforia (ah, a semiótica... mas não é minha especialidade, não!), procrastinação, perrengues, crises, encontros e desencontros acadêmicos etc. e tal. Parabéns para mim, mas minha vida não mudou em nada desde então. Muito pelo contrário [mas isso é assunto para uma próxima].
  • Voltei ao "mercado" após dois anos. Achei que isso não fosse acontecer, de verdade. Já estava pensando em virar babá ou coisa do gênero, porque a coisa não estava (está) fácil, não.
  • Descobri que tenho crises de labirintite decorrentes de estresse.
  • Fiz uma pequena cirurgia de pele para retirar uma espécie de pinta cujo nome me esqueci.
  • Enquanto eu atualizava minhas configurações do blog, percebi que, na lista de e-mails, constava o de uma grande amiga que perdi há quase um ano. Ela se foi tão de repente e tão discretamente [como sempre foi a vida toda] que às vezes me pego me lembrando de mandar uma mensagem bem fofoqueira ou um daqueles links com bobeiras no Facebook que costumávamos trocar. Mas a Denize não está mais aqui. E eu ainda não superei a sua partida. Não tive como não me recordar do nosso último encontro antes de sua viagem ao Peru e antes de sua partida definitiva. E também não tenho como não esquecer de sua imagem no nosso último jantar, em um restaurante japonês, feliz com a viagem que faria, com a pós, com o trabalho, com a imagem na UTI 3, 4 dias depois do retorno do Peru, com sua imagem no velório e com a imagem de sua mãe e seu irmão, devastados – imagens das quais nunca me esquecerei, muito provavelmente. Não, aquela não era minha amiga. Eu custava a acreditar. Fiquei em choque por mais de um mês e, ainda hoje, tais imagens vêm à minha mente de repente. Fiquei revoltada [por que justo ela?!], fiquei triste, fiquei mal. Eu que sempre achei tudo meio sem sentido, desde então acho que quase nada faz mais sentido.
  • Num desses encontros da vida, conheci uma pessoa que estava procurando alguém para ser sua "cobaia" em seus estudos de coaching, e eu fui a tal cobaia. Foi um processo meio estranho a princípio, mas, após o fim dele, percebo que foi válido em alguns aspectos, como, por exemplo, ter buscado ajuda terapêutica profissional. Comecei há um mês mais ou menos e isso renderá muita coisa por aqui.
Esse último marcador me fez lembrar de algo que estive pensando durante a semana:
Por que sentimos falta/saudade de algo que, outrora, era chato, insuportável? Por que o agora é pior do que o passado? O futuro pode ser pior que o presente? [Eu sempre acho que pode.] Dou alguns exemplos.

No ano passado, eu fui professora de alemão em uma escola. Não gostava de uma coisa de lá [que é comum em praticamente todas as escolas de idiomas], mas, exceto isso, eu sinto muita falta de lá: dos alunos, dos colegas, da estrutura, da proximidade com a minha casa. Na época eu nem ligava muito.
Outro exemplo: ultimamente sinto saudade até de um outro trabalho que tive [e que foi motivo de diversas postagens por aqui]: da cultura organizacional, da estrutura e dos amigos que fiz [exceto da demônia motivo de várias postagens também]; até do meu primeiro estágio estou sentindo saudade ultimamente – a impressão que tenho é de que eu era mais feliz naquela época em que ganhava uma merreca e conhecera muita gente ótima, incluindo meu marido e a Denize, que partiu.
Confesso que estou tentando extrair alguma coisa positiva do presente, mas tá difícil!!! Talvez, quando este presente virar passado, eu veja alguma coisa boa dele.

E finalmente voltei a fustigar.

domingo, 17 de novembro de 2013

Período de ausência

A quem lê este blog (e a mim mesma),

Estou há cinco meses sem escrever nada por aqui. Não, eu não abandonei o meu blog. Ainda tenho muito o que fustigar. É que passei por uns momentos bem agitados e difíceis, e, agora, estou me dedicando à redação final de minha dissertação. Não fique chateado. Espero que, a partir do começo de fevereiro, eu volte à "normalidade". Afinal, o que é "normalidade"? Isso daria uma boa postagem, hein!

Saudações fustigantes.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A estante do outro lado

Por volta dos meus oito anos, na antiga segunda série, eu fui, pela primeira vez, à biblioteca da escola onde estudava. Uma vez por semana, tínhamos a aula na "sala de leitura", a qual era conduzida pelo professor Luis (sim, um homem, fato raríssimo na educação de nível primário). Até hoje não me esqueço do estilo meio missionário, meio padre, de uma mansidão, de uma paciência e uma tranquilidade na voz, características das quais é impossível esquecer – até porque tais atributos não vi em mais ninguém até hoje.
Aquele fato não teria sido nada demais se o professor Luis não fosse um daqueles mestres que sacam qual é a de seu pupilo desde cedo. Não sei como, a cada aula, ele me recomendava alguma leitura além das que éramos incumbidos a fazer a cada semana – aqueles livros adequados à nossa idade naquela época, como os da Ana Maria Machado, Eva Furnari, Pedro Bandeira, entre outros. Não me recordo exatamente o que ele me dava para ler, só sei que eu o fazia vorazmente. E ficava de olho em uma estante do outro lado da biblioteca: a estante com as obras da Coleção Vagalume e os clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Eu não via a hora de ter a idade "adequada" para pegar um daqueles livros que  me chamavam tanta atenção. E o sábio professor Luis sabia dessa minha curiosidade.
Um dia, peguei coragem e fui fuçar naquela estante. Um título me chamou a atenção: "Morte e vida severina". Ao pegar naquele livro, logo fui pensando que se referia a uma mulher chamada Severina. O professor Luis se aproximou, pegou o livro das minhas mãos e disse: "Você ainda não pode tomá-lo emprestado, mas pode dar uma olhada." Em seguida, com seu rosto bondoso, me disse: "Ainda terá muito tempo para ler tudo isso aqui. Vai gostar."
Ao folhear aquelas páginas, o primeiro verso da obra me chamou tanto a atenção que, até hoje, não me esqueço: "Meu nome é Severino. Não tenho outro de pia" Óbvio que não entendi o que aquilo queria dizer, só sei que me marcou. Eu li a obra muito tempo depois, na época do vestibular, porém sem aquele brilho e entusiasmo dos meus oito anos. Mas reconheço o valor dessa obra. Não sou fã ardorosa de poesia, mas esse poema é um petardo.

Além de me estimular a querer ler o que tinha na estante do outro lado, o professor Luis sempre me incentivava a pensar sobre o que eu estava fazendo na escola, o que eu via na TV, o relacionamento com os outros colegas, etc. Inclusive, eu tinha uma rixa com um menino que era um daqueles inteligentes e exibidos. Tínhamos uma disputa acirrada e declarada. Eu, competitiva que sou, sempre chegava com alguma coisa a mais nas aulas, a fim de acabar com o moleque – que detestava, diga-se de passagem. A competitividade é intrínseca a mim, fazer o quê! Voltando ao estímulo ao pensamento, eu sou muito grata à postura que o professor Luis tinha comigo (claro que com os outros ele era ótimo também). Acho que ele, talvez, lá atrás, havia percebido que eu iria me enveredar nesse mundo das letras. E nunca me esqueço daquela estante do outro lado da sala de leitura, que me instigava a descobrir um mundo até então desconhecido. Posso não ser aficionada por literatura atualmente, mas aquela época foi essencial à minha formação.

domingo, 26 de maio de 2013

Status: ocupada

Uma das coisas que mais me irrita nas pessoas ultimamente, e principalmente, na mulherada, é "a correria". Amigos, colegas, ex-colegas, inimigos, sem exceção, estão sofrendo do mal da atualidade: a "falta de tempo". Não poupo ninguém, sinto muito. E o atestado disso é a tal "timeline" do Facebook. Gente falando da falta de tempo como se fosse a coisa mais sensacional do universo, que estar ocupado, com todos os horários preenchidos na agenda, é uma obrigação. Que é legal ficar 10, 12 horas num trabalho (e posta nas redes sociais) e, depois, desse trabalho, ir para uma academia gastar todas as calorias adquiridas depois de metade de um dia inteiro sentado em frente a um computador; ou ir para uma faculdade ou curso livre para tentar aquela promoção ou ganhar uns R$ 100 a mais no final do mês; ou se empanturrar com alguma gordice que vai direto para a "pochete"; ou deixar de encontrar um velho amigo porque ficou até mais tarde ou tem trabalho extra para fazer em casa, mesmo nos finais de semana; ou deixar de ver aquele filme que estreou porque está sem tempo; ou deixar de ler aquele livro ou assistir àquele seriado na TV paga porque está muito cansado; ou deixou de brincar com o filho ou com o sobrinho porque ele não aguentou a espera. Cansou só de ler todas essas situações? Então, eu me cansei de ler e ouvir todas essas chatices.

Por que toda essa urgência em ocupar as 24 horas do dia? E por que expor toda essa "ocupação"? Hoje em dia, "estar ocupado", "viver na correria"  virou sinônimo de status e de bem-querença. E quem tem "um tempinho" para fazer o mínimo daquilo que se tem prazer, é considerado desocupado, coitado, até mesmo frustrado. Frustrado? Faça-me o favor! É um frustrado aquele que tem tempo para "não fazer nada", ir ao cinema, à livraria, ao médico? É, o conceito de viver está reverso. Sei que isso pode soar como indireta a alguém que conheço, mas é bem por aí mesmo: na verdade, é uma "direta", para que você reflita sobre o que está fazendo com tua vida. Se estar na correria é bárbaro, saiba que você está perdendo tempo. Contraditório, não?

Engraçado como a vida corrida nos é empurrada goela abaixo pela mídia e pela publicidade, pelo cotidiano influenciado por essas duas esferas – de como é "cool" não ter tempo para nada –, o qual nos faz buscar alternativas a tudo, para "economizar" tempo: do micro-ondas e da máquina de lavar, passando pelo WhatsApp da vida até algo mais absurdo que está por vir em breve. Pois fazer a própria refeição demora, pegar num telefone e ligar para um amigo, um parente ou marcar uma consulta com dentista é um porre, almoçar decentemente está fora de cogitação, etc. Demora para fazer o quê? Ir para as redes sociais e postar que foi almoçar (15 minutos) num restaurante X, que está no trânsito, tudo via Foursquare, que está rolando uma reunião ou uma festinha "da firma", ou que foi ao banheiro? Pelo que vejo nas tais redes, é bem por aí mesmo. Depois reclama que não tem tempo para fazer o trabalho, a monografia, o TCC, o inferno!

Particularmente, se eu gostasse desse tipo de status, eu também encheria a timeline das pessoas com coisas do tipo: "acordei megacedo para ir a uma palestra na USP e participar de uma reunião com minha orientador", "nossa, preciso escrever minha dissertação", "essa correria da dissertação... ai, ainda preciso me inscrever para aquele congresso", "amigos, me desculpem, mas estou ocupada com minha pesquisa", "estou correndo para o aeroporto - universidade X que me espere, uhu!". Sacal. Claro que tenho esses afazeres e muitos outros, mas bom senso é tudo nessa vida – real ou virtual. Mesmo que eu esteja na fase da reta final de minha pesquisa, eu nunca vou deixar de fazer o que preciso ou o que gosto por "falta de tempo": abandonar família, entrar em contato com amigos, ir ao cinema... Não sou desse tipo de mulher "moderna e independente". Independente? Pelo contrário, a tal "mulher-alfa-moderna-independente-masculinizada-que é foda em tudo" é extremamente dependente justamente das facilidades da modernidade e quer sempre se exibir ao dizer que está ocupada, "coitada". Ah, vá, isso foi uma escolha. Problema teu. Uma relação mutualística meio maluca essa entre modernidade e dependência. Falo da mulher, pois, o que mais vejo são as exaltações e alusões à "correria".

Então, minha amiga, inimiga, colega, não aguento mais ouvir esse papinho. Vá viver tua vida como ela merece ser vivida (daí o tipo de merecimento depende do ponto de vista).  

domingo, 28 de abril de 2013

Kamikazes


Somos preparados para morrer. Se não caímos numa imensidão de corrente sanguínea, somos barrados por uma espécie de capuz de borracha, ou – o que é pior – somos bloqueados por um escudo gigantesco o qual, ao trombarmos nele, a morte é certa.
Ultimamente ouvimos muito a respeito de um tal de Tâmisa. Certa vez, os mais velhos e já falecidos me disseram que esse era um nome de um rio. Mas o tal do Tâmisa que conhecemos por aqui  há algum tempo é o que forma o escudo de hormônios gigantesco que impede nossa entrada no óvulo da parceira do nosso hospedeiro. O que faz de nosso trabalho extremamente inútil; mas, fazer o quê? Recebemos essa preparação para o suicídio coletivo. 
No entanto,  o que ainda nos alegra é que existem seres humanos que não se utilizam desses métodos para impedir nossa entrada. Alguns utilizam temporariamente, outros, por convicções religiosas, abolem firmemente; o que nos deixa muito contentes, mesmo se morrermos em combate, pois, pelo menos, estamos tentando atingir nosso objetivo.
Eu espero que a minha vez chegue quando a nossa receptora parar de incluir esse Tâmisa na nossa rotina de trabalho. Se não chegar até lá, morro feliz por ter caído na imensidão da corrente sanguínea e ter tentado cumprir o meu papel.


*Ao vasculhar algumas coisas da minha estante, me deparei com a pasta do curso de escrita criativa que fiz em 2011 (parece que fiz na semana passada, tamanha a velocidade do tempo) e encontrei alguns exercícios bem divertidos, como este. Postarei outros que ficaram bem interessantes (nessa leitura atual).

terça-feira, 19 de março de 2013

Ah, a ciência...


Ah, a ciência... 

Por causa dela estive afastada do meu ritual de exorcismo que é este blog. Antes de qualquer coisa, segue um link que me fez refletir acerca da "gaia ciência" (tomando emprestado o título da obra do Nietzsche). O texto é da megaconhecida neurocientista Dra. Suzana Herculano-Houzel. Vale muito a pena a leitura.

           http://www.posgraduando.com/pos-graduacao/voce-quer-mesmo-ser-cientista


Quando li esse artigo (e já reli algumas outras vezes), confesso que deu vontade de jogar tudo para o alto e "me vender ao sistema". Pois é essa a vontade que dá com quase todo mundo que faz mestrado/doutorado neste país. Vender-se ao sistema para viver com a mínima dignidade. Ou não.

São tantos os percalços pelos quais o pós-graduando passa que ele deveria ser chamado de "guerreiro". Sim, porque quem faz pesquisa no Brasil é um sofredor e guerreiro, pelas conhecidas faltas de recursos, de bolsas, de equipamentos, de bibliotecas razoáveis... É lugar-comum dizer que a sociedade não tem a mínima noção do que ele faz, mas quer que ele retorne todo o investimento que ela dá por meio dos impostos pagos. E somos cobrados pelas universidades em que estudamos para fazer o tal "ROI" (return on investment, utilizando um jargão bem escroto de "business"). 

Ao mesmo tempo que partilho da mesma opinião da professora Suzana — de largar a ciência e ganhar dinheiro bem mais fácil fazendo marketing ou virar rata de mídia social —,ainda permanece aquele sentimento de "estou fazendo algo em prol de", "pelo menos estou pensando por milhares que mal sabem o que é isso". Soa um tanto arrogante, contudo, é bem a real. Hoje, tive esse pensamento durante uma palestra proferida por um grande linguista e professor aposentado lá da faculdade. No meio de sua fala, ele afirmou e reafirmou: "somos nós, pesquisadores, quem pensamos este país. Não adianta. Por mais que governos abandonem a ciência em seus planos, nós estaremos lá, em nossos 'cantinhos', refletindo a nossa sociedade, o nosso país." Espero que isso fique gravado em minha memória para eu não esquecer quando a neurose e o desânimo baterem.

Acredito que o sentimento de boa parte dos pesquisadores (principalmente dos estudantes) como eu é o do paradoxo: ao mesmo tempo que fico questionando a "utilidade" de minha pesquisa —; ouvindo as bancas destruírem teu trabalhos; sofrendo as agruras de quem atualmente vive com a bolsa da Capes; sofrendo "bloqueios criativos" com a minha escrita, achando que o trabalho do colega é sempre melhor que o meu —, por outro lado, a sensação de "relativo poder" e satisfação — quando escrevo algo que é elogiado pela orientadora ou por algum outro professor; quando vou à biblioteca na hora que quero; quando participo de algum evento e daí conheço novos colegas; quando converso com os que já conheço e trocamos sugestões bibliográficas e visões de mundo — é indescritível. Sentimentos contraditórios, porém inseparáveis.

Possivelmente, por causa da ciência e do estresse advindo dela, eu tive minha primeira crise de labirintite. A uma semana do meu exame de qualificação, fiquei completamente "bêbada"; uma semana inteira tendo vertigens que me impossibilitaram de fazer qualquer coisa. Claro que me cuidei e fiquei bem para o exame, mas serviu o alerta.

Conclusão: ainda não sei. Estou em plena fase das dúvidas após o exame de qualificação. Não sei para qual rumo seguir. Se mantenho a mesma teoria, a mesma análise linguística, não sei. "Só sei que nada sei", é o que dizem. A única certeza é a que tenho MUITO trabalho e muitos ajustes a serem feitos.