Em uma das minhas postagens anteriores, eu mencionei a minha intenção de viajar no final do ano passado, já que teria férias coletivas do meu trabalho. E foi o que eu e meu marido fizemos: passamos uma semana sensacional no sul da Bahia (Porto Seguro e seus distritos de Arraial d'Ajuda e Trancoso).
Como não queríamos qualquer tipo de muvuca, nos hospedamos em Arraial. Decisão mais que acertada, porque é uma "vibe" completamente diferente da de Porto Seguro, apesar de pertencê-la: tranquilidade, pouco movimento, lojas que funcionam das 16 às 23h, gastronomia diversificada, bom som (ouvi um bom blues num dos becos da vila) e pessoas de conversa fácil. Adoramos o local e muito provavelmente voltaremos nas próximas férias, pois lá conseguimos conciliar tudo o que gostamos – o que não é nada fácil ao viajar. Mas o que me chamou a atenção na minha viagem foram dois pontos: o luxo versus a simplicidade e a visita a uma reserva indígena.
Como alguns devem saber, um tema bastante disseminado e debatido nas redes sociais e de certa forma na mídia foi a "camarotização" da vila de Trancoso, devido a um artigo escrito pela consultora de moda Glória Kalil [Ah, para os amigos de fora do país, essa expressão foi cunhada pela banca de redação do último vestibular da Fuvest, cujo tema foi algo como a "camarotização da vida"]. Dentre vários argumentos bem consistentes, ela resume que todo esse luxo em torno de Trancoso não é nada chique (ela usa chic, fazendo uma alusão ao título de seu livro do mesmo nome). Nunca pensei que um dia eu iria concordar com Glorinha. O link do texto é este aqui:
http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2015/01/07/camarotizacao-de-trancoso-nao-e-nem-um-pouco-chique.htm http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2015/01/07/camarotizacao-de-trancoso-nao-e-nem-um-pouco-chique.htm
Como esse artigo foi publicado justamente na época em que viajei para lá, nada mais oportuno dar meu depoimento.
Resolvemos passar uma tarde em Trancoso e fomos de Arraial para lá de ônibus. Coisa fácil, pois ele saía da balsa que vinha de Porto Seguro e passava em frente à pousada em que ficamos. O caminho foi tranquilo, de estrada asfaltada, porque até há pouco tempo era complicado chegar até lá, conforme nos disseram.
Quando o ônibus foi adentrando à vila, reparei que somente a avenida principal era asfaltada e as demais eram de terra. As casas e o comércio eram tão simples, beirando à precariedade, que, na hora, me lembrei da periferia de qualquer grande cidade brasileira. Daí, o ônibus nos deixa no ponto final: a famosa praça conhecida como "Quadrado". O Quadrado nada mais é um extenso gramado com casinhas coloridas e árvores frondosas, com lâmpadas, nas laterais. Há uma igreja histórica e um mirante com vista ao mar e à vegetação. Uma graça. Mesmo. Mas era só isso.
Logo que chegamos, um menino de bicicleta se aproximou de nós perguntando se queríamos que ele nos acompanhasse até o mirante para nos contar a história da vila. Já traumatizados com a fama de "Oscar Freire" de lá, perguntamos o quanto ele cobrava, pois não dissemos tínhamos dinheiro como os outros turistas que lá frequentam [e não tínhamos mesmo, só cartão]. O garoto disse que qualquer dois reais já estava bom. Deixamos que ele nos contasse a história de lá. Ele explicou que na escola da vila há um projeto de formação de guias-mirins para recepcionar os turistas e, com isso, fazer que a história do local não se perca. E realmente ele sabia muito da história desde a invasão portuguesa. Contou-nos a respeito das casinhas coloridas, do valor delas (em média R$ 3 milhões), da construção da famosa igrejinha e nos deu dica de uma praia mais em conta. Eu perguntei ao guia Dionísio das tais celebridades que passam o verão e ele me olhou com certo ar de "ninguém merece esses caras" e ele me disse que estavam para chegar o Neymar e sua irmã [oi? irmã do Neymar é alguma coisa nessa vida, gente? Ou estou por fora?], Lionel Messi, Kate Moss, Naomi Campbell e Felipe Massa. Fora que a Elba Ramalho é praticamente dona da vila. Ele nos contou que seus pais eram de fora [pai gaúcho e mãe mineira, ambos artesãos], como a maior parte dos moradores de lá, e nos mostrou um pequeno cemitério no canto do Quadrado. Ele disse que lá só eram enterradas pessoas nascidas na vila de Trancoso, ou seja, pouquíssimas. Pagamos o que tínhamos para o menino Dionísio, nos despedimos e resolvemos entrar. Toda graciosidade, limpeza e beleza do Quadrado ficaram do lado de fora. Nunca presenciei tal abandono em forma de sujeira, entulhos, valas abertas, túmulos violados e bichos andando livremente por eles. Não dava para saber direito quais eram os túmulos, pois deu a impressão de que eles foram colocados aleatoriamente. Comecei a reparar nas inscrições nas lápides [se é que aquela improvisação toda podia ser chamada de lápide, cruz, ou qualquer outra coisa do gênero] precárias: muita, mas muita gente jovem enterrada, principalmente rapazes da faixa dos 20 anos; havia também muitas crianças e, em seguida, moças jovens. E o que mais me chamou a atenção é que as datas não eram antigas, já que, na hora, me veio a questão da mortalidade infantil, fome, falta de saneamento etc. de décadas atrás. Não. As datas eram de 2009, 2010, 2011. Algumas do início dos anos 2000. Fiquei intrigada e muito, muito triste. Só pensava que algo ali não batia com o que eu via do lado de fora.
Em seguida, fomos em direção à praia. Atravessamos uma passarela sobre um manguezal e ali vimos caranguejos amarelos, vermelhos e azuis. Inédito para mim até então. Chegamos à Praia dos Coqueiros, a mais "em conta" segundo nosso amigo guia-mirim. Caminhamos e atravessamos a foz do rio Trancoso para chegarmos à Praia dos Nativos, a mais badalada de Trancoso. Ela até que estava bem tranquila para uma véspera de Natal. Ficamos por lá mesmo. O mar era de águas verdinhas e mornas [e sem algas e corais, ao contrário de Arraial, repleto delas]. A faixa de areia era bem larga, e boa parte dela era coberta por espreguiçadeiras, cadeiras de praia e guarda-sóis diferenciados dos condomínios e mansões com saída para a praia. A partir do ponto em que estávamos, dava para perceber as coisas para o público tipo Oscar Freire. Bateu uma certa preguiça de ver tudo isso, fomos para o mar e, depois, voltamos para a vila procurar algo menos exorbitante para almoçar. Como eu já estava avisada dos preços das coisas, resolvi dar uma olhadinha no que não me esperava: galerias de arte e decoração, lojas de grife como a Carmim, restaurante tailandês, bistrô de comida sei-lá-o-quê, parada de comida orgânica e restaurantes, digamos, mais "convencionais" [sei lá, salmão marinado no terroir de Bourdeaux acompanhado com arroz-negro de Bali]. Resolvemos comer num quilo na entrada do Quadrado. O valor do quilo era igual ao que eu pago na região do Sumaré para almoçar durante a semana, ou seja: caro, mas "menos" pior. Ficamos mais um pouco e resolvemos voltar para Arraial de lotação. A van começou a percorrer as praias da vila atrás de passageiros. Ruas de areia batida em que um carro pequeno deve sofrer muito para percorrer. Mansões enormes, com portões automáticos e cercas elétricas, as ruas de areia. Condomínios luxuosos aos montes, as ruas de areia. Bacanas fazendo sua corrida de fim de tarde à beira da mata virgem com seus tênis Nike e abdômens sarados nas ruas de areia. Eu olhava tudo aquilo completamente embasbacada e entristecida. Como pode aquele lugar tão bacana, com toda uma história, simples, de gente idem, acolhedora, de papo fácil, ser invadido daquela forma e se transformando numa mistura de Saint-Tropez com Ibiza? Essa foi a pergunta intrigante que ficou no ar. Mais do que uma simples ida a um local com praias, a ida a Trancoso foi uma experiência sociológica.
Em suma, é brega, é cafona esse tipo de luxo atribuído a Trancoso. O lugar em si não tem nada demais. É uma vila de pescadores e só. Mas alguém resolveu dizer que lá é glamouroso e todas as "glamurettes" vão desfilar suas grifes em forma de pano.
Quanto às outras vivências...
Outra coisa que marcou demais foi a ida à Reserva Indígena Pataxó da Jaqueira, em Porto Seguro. Foi uma experiência tão marcante e intensa que não esquecerei. Nunca fui muito ligada em cultura e mitologia indígenas, confesso, mas, ao ouvir a história de luta e resistência daquela etnia, depois ver um de seus rituais e conhecer a sua rotina, passei a respeitar os pataxós. Essa foi a mesma reserva que a seleção alemã visitou na época da Copa do Mundo. Acho que o ritual dos índios deu uma força para o time para ganhar o título...
A experiência foi tão bacana e singular que não há palavras para descrevê-la. Só sei que a visita à reserva foi uma experiência antropológica.
Toda vez que viajo, procuro extrair esse tipo de experiência que une o contraste, o belo x feio, o papo com o morador, comer o que ele come, se "perder" pela cidade, enfim, fazer que isso transcenda a uma simples viagem de férias de fim de ano.
sábado, 17 de janeiro de 2015
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Ah, os intocáveis...
Há algumas semanas, tive uma conversa com uma querida colega jornalista a respeito de carreira, ou, melhor, dar um novo direcionamento a ela; fui eu que pedi para trocar umas ideias com ela, devido a esse período de transição em que estou vivendo já faz algum tempo. Ela me deu alguns ótimos toques e, entre eles, a indicação de um livro chamado "Lean In: Women, Work, and the Will to Lead", da chefe de operações do Facebook Sheryl Sandberg em parceria com um cara que eu me esqueci o nome. Aqui no Brasil o título é Faça acontecer - mulheres, trabalho e a vontade de liderar. Como o tema me interessa muito, finalmente adquiri o livro na semana passada e comecei a lê-lo hoje a caminho do trabalho. O tema é ótimo, a tradução é da sempre competente Denise Bottmann e, pelo jeito, a leitura vai me prender (que bom!). Ah, e o prefácio é da empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza. Afinal, nada mais justo a edição conter um texto de alguém com o perfil da Lu, oras!
[Abrindo parêntese: a primeira vez que eu vi uma loja do Magazine Luiza foi em 2004, lá em Botucatu, na época em que tentei cursar Agronomia na Unesp. Ainda não havia lojas da rede varejista aqui em São Paulo. Algum tempo depois, vi uma loja aqui e outra ali. Depois, quando eu comecei a trabalhar no Meio & Mensagem, revisava muitos textos a respeito do anunciante Magazine Luiza, das estratégias de mercado adotadas pela empresa e muitas citações a sua presidente. Comecei a me interessar demais por sua trajetória e li muita coisa a seu respeito. Mas a "Lu" ganhou minha admiração quando ela esculachou com aqueles jornalistas coxinhas do "Manhattan Connection", principalmente com o Diogo Mainardi, ao explicar, com dados e mais dados, o varejo para a classe C. Em suma, ela deu uma aula de economia e deixou o cara sem fala. O link é este aqui e divirta-se, pois vale muito a pena! https://www.youtube.com/watch?v=WCTkwB2BcwY
Fechando parêntese.]
Voltando ao livro, o que me chamou a atenção nessa leitura inicial foi algo um tanto recorrente no mercado editorial brasileiro: a intocabilidade de alguns textos.
O prefácio de Luiza é claro, simples e objetivo. Dá para perceber que ela colheu informações a respeito da autora Sheryl Sandberg [afinal, ela é uma das pessoas mais poderosas da maior rede social do mundo] e [principalmente] que o texto é de sua autoria. Entretanto, aí é que reside o problema.
Como dois mais dois são quatro, a Lu é uma pessoa ocupadíssima. Isso é fato. E, muito provavelmente, enquanto a edição estava sendo preparada, o texto da Luiza ainda não havia sido entregue. Algo muito comum no mundo editorial. E outra coisa muito comum nessa área é a tal "intocabilidade" que mencionei acima.
Quando alguém é perito em sua área, seja ela qual for, este é respeitadíssimo, claro. É o caso da Luiza [Lu, te adoro!]. Porém, existe essa "tarefa", se é que posso chamar assim essa característica, de as editoras brasileiras não darem lá muita atenção aos textos dessas "autoridades". Dois exemplos do prefácio: "encarregada de sessão" [no lugar de seção, departamento] e "expectadora" [no sentido de ver, assistir]. Não estou criticando e apontando os desvios ortográficos da escrita de Luiza porque desvios desse tipo são extremamente comuns – pois todos nós tropeçamos nessa nossa língua dificílima – e também não critico meus colegas revisores deste livro, pois é bem provável que esta parte do prefácio não tenha passado por eles. Algo parecido já aconteceu com um livro que revisei há alguns meses: no meio do processo de edição, a tradutora da obra nos entregou de última hora sua introdução e nos foi alertado de que não "mexeríamos" em seu texto porque ela é respeitadíssima no meio. Demos uma olhadela básica e estava tudo bem. Porém, na edição impressa, o texto introdutório dela saiu com um trecho repetido de um parágrafo. Nos indagamos como isso aconteceu, pois estava tudo certo [apesar de não termos concordado em deixar o texto da tradutora do jeito que ele saiu] e sabe-se lá como o famigerado trecho se repetiu. Quando o assunto é texto, tudo é possível. Possivelmente, a mesma coisa deve ter ocorrido no processo de edição de Faça acontecer. Provavelmente alguém disse para a equipe que não "mexesse" [a.k.a. revisar] no texto da Luiza, já que ela é "uma autoridade no assunto, porque os editores lidam com egos dos autores e blá-blá-blá". Porém, o "saci" pula aos olhos do leitor mais atento [não digo isto como revisora], e quem leva a culpa é, claro, o revisor, depois o editor, a editora e, inclusive, a Lu [que não tem obrigação nenhuma de ser uma sumidade na modalidade escrita da língua portuguesa].
Utilizo, agora, dois jargões muito comuns na área corporativa que ilustram bem esses casos: é preciso ter comprometimento [das empresas] e muita, muita resiliência [dos profissionais envolvidos na produção do livro].
Mas não vejo a hora de continuar a leitura na volta para casa! E um dia eu quero ser como a Lu!
[Abrindo parêntese: a primeira vez que eu vi uma loja do Magazine Luiza foi em 2004, lá em Botucatu, na época em que tentei cursar Agronomia na Unesp. Ainda não havia lojas da rede varejista aqui em São Paulo. Algum tempo depois, vi uma loja aqui e outra ali. Depois, quando eu comecei a trabalhar no Meio & Mensagem, revisava muitos textos a respeito do anunciante Magazine Luiza, das estratégias de mercado adotadas pela empresa e muitas citações a sua presidente. Comecei a me interessar demais por sua trajetória e li muita coisa a seu respeito. Mas a "Lu" ganhou minha admiração quando ela esculachou com aqueles jornalistas coxinhas do "Manhattan Connection", principalmente com o Diogo Mainardi, ao explicar, com dados e mais dados, o varejo para a classe C. Em suma, ela deu uma aula de economia e deixou o cara sem fala. O link é este aqui e divirta-se, pois vale muito a pena! https://www.youtube.com/watch?v=WCTkwB2BcwY
Fechando parêntese.]
Voltando ao livro, o que me chamou a atenção nessa leitura inicial foi algo um tanto recorrente no mercado editorial brasileiro: a intocabilidade de alguns textos.
O prefácio de Luiza é claro, simples e objetivo. Dá para perceber que ela colheu informações a respeito da autora Sheryl Sandberg [afinal, ela é uma das pessoas mais poderosas da maior rede social do mundo] e [principalmente] que o texto é de sua autoria. Entretanto, aí é que reside o problema.
Como dois mais dois são quatro, a Lu é uma pessoa ocupadíssima. Isso é fato. E, muito provavelmente, enquanto a edição estava sendo preparada, o texto da Luiza ainda não havia sido entregue. Algo muito comum no mundo editorial. E outra coisa muito comum nessa área é a tal "intocabilidade" que mencionei acima.
Quando alguém é perito em sua área, seja ela qual for, este é respeitadíssimo, claro. É o caso da Luiza [Lu, te adoro!]. Porém, existe essa "tarefa", se é que posso chamar assim essa característica, de as editoras brasileiras não darem lá muita atenção aos textos dessas "autoridades". Dois exemplos do prefácio: "encarregada de sessão" [no lugar de seção, departamento] e "expectadora" [no sentido de ver, assistir]. Não estou criticando e apontando os desvios ortográficos da escrita de Luiza porque desvios desse tipo são extremamente comuns – pois todos nós tropeçamos nessa nossa língua dificílima – e também não critico meus colegas revisores deste livro, pois é bem provável que esta parte do prefácio não tenha passado por eles. Algo parecido já aconteceu com um livro que revisei há alguns meses: no meio do processo de edição, a tradutora da obra nos entregou de última hora sua introdução e nos foi alertado de que não "mexeríamos" em seu texto porque ela é respeitadíssima no meio. Demos uma olhadela básica e estava tudo bem. Porém, na edição impressa, o texto introdutório dela saiu com um trecho repetido de um parágrafo. Nos indagamos como isso aconteceu, pois estava tudo certo [apesar de não termos concordado em deixar o texto da tradutora do jeito que ele saiu] e sabe-se lá como o famigerado trecho se repetiu. Quando o assunto é texto, tudo é possível. Possivelmente, a mesma coisa deve ter ocorrido no processo de edição de Faça acontecer. Provavelmente alguém disse para a equipe que não "mexesse" [a.k.a. revisar] no texto da Luiza, já que ela é "uma autoridade no assunto, porque os editores lidam com egos dos autores e blá-blá-blá". Porém, o "saci" pula aos olhos do leitor mais atento [não digo isto como revisora], e quem leva a culpa é, claro, o revisor, depois o editor, a editora e, inclusive, a Lu [que não tem obrigação nenhuma de ser uma sumidade na modalidade escrita da língua portuguesa].
Utilizo, agora, dois jargões muito comuns na área corporativa que ilustram bem esses casos: é preciso ter comprometimento [das empresas] e muita, muita resiliência [dos profissionais envolvidos na produção do livro].
Mas não vejo a hora de continuar a leitura na volta para casa! E um dia eu quero ser como a Lu!
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Saudade sem tristeza
Ontem fez cinco anos que meu avô partiu [como é sabido por muitos, eu praticamente fui criada pelos meus avós maternos e morei com eles dos meus 10 até os 25 anos.]. Não encaro essa data com pesar, longe disso. Ele era uma figura, logo, não consigo pensar nele com tristeza. Eu sempre penso nos episódios ora engraçados, ora insólitos, ora emocionantes. E lá vai alguns deles.
O nome do meu avô era Pedro, e ele possuía uma barriga avantajada. Não sei quando e como, o seu apelido era Pedro Caroço, por causa daquela música do Genival Lacerda que diz "ele tá de olho é na butique dela", que tem um trecho que fala de um tal de "Pedro Caroço". Pegou. Meu avô era muito conhecido lá na vila em que morava e, por onde ele passava, o chamavam de "Pedro Caroço" ou simplesmente "Caroço". Havia dias em que, se alguém o chamava "Aô, Caroço!", ele respondia com sua delicadeza: "Caroço é teu #$%&". Ninguém levava a mal, pelo contrário. Eu só ouvia gargalhadas.
Outro episódio foi com uma querida amiga minha. Um dia, ela passou lá em casa [ainda morava com meus avós] com outros amigos nossos para me pegar e havia uma parte do carro dela que estava solta há meses. Ela sempre falava que levaria o carro para o conserto, e nada. Meu avô olhou o carro como quem não quer nada e saiu. Em seguida, ele volta com sua maleta de ferramentas e prendeu o que estava solto. Ele disse que era só para "quebrar um galho". Meus amigos ficaram admirados com tamanha habilidade [e ele nem era mecânico, funileiro ou algo assim]. Anos depois, reencontro minha amiga com o mesmo carro e a peça nunca mais se soltou. E, se não me engano, o carro foi vendido tempos depois.
Me lembro também que meu avô era um guia de ruas ambulante. Afinal, ele foi motorista de caminhão e andava por tudo quanto era lado de São Paulo. Para qualquer lugar que eu precisava ir, ele me indicava a direção de cor. Não havia erro, salvo raras exceções. Além disso, ele era um daqueles "curiosos" que mexiam em tudo: elétrica, hidráulica, marcenaria, costura, conserto de panelas... e tudo sempre dava muito certo. Eu o achava muito genial, apesar de ter sido analfabeto.
Essa foi uma das últimas vezes em que estivemos juntos. No dia em que fui para a Alemanha, dei um abraço e ele disse "Essa daí eu não vejo mais". Mas ninguém levou a sério, inclusive eu. Meses depois, eu voltei ao Brasil para umas férias e o reencontrei pela última vez. Na época, eu e meu marido estávamos no começo de namoro e fui apresentá-lo à família. Quando chegamos em casa, o Seu Pedro, no alto de seus 82 anos [já que ele não parava um minuto], estava pintando uma das paredes; eu apresentei ele ao meu marido:
– Vô, este é o Juliano. – O Juliano disse:
– Boa tarde, tudo bom com o senhor? – meu avô, com seu jeito típico:
– Opa. Tô vivo.
Esse foi o primeiro e único encontro dos dois. Poucos dias depois, antes de retornar à Alemanha, ele disse, novamente, antes de eu ir para o aeroporto: "Essa daí não vejo nunca mais". E a promessa se cumpriu.
O nome do meu avô era Pedro, e ele possuía uma barriga avantajada. Não sei quando e como, o seu apelido era Pedro Caroço, por causa daquela música do Genival Lacerda que diz "ele tá de olho é na butique dela", que tem um trecho que fala de um tal de "Pedro Caroço". Pegou. Meu avô era muito conhecido lá na vila em que morava e, por onde ele passava, o chamavam de "Pedro Caroço" ou simplesmente "Caroço". Havia dias em que, se alguém o chamava "Aô, Caroço!", ele respondia com sua delicadeza: "Caroço é teu #$%&". Ninguém levava a mal, pelo contrário. Eu só ouvia gargalhadas.
Outro episódio foi com uma querida amiga minha. Um dia, ela passou lá em casa [ainda morava com meus avós] com outros amigos nossos para me pegar e havia uma parte do carro dela que estava solta há meses. Ela sempre falava que levaria o carro para o conserto, e nada. Meu avô olhou o carro como quem não quer nada e saiu. Em seguida, ele volta com sua maleta de ferramentas e prendeu o que estava solto. Ele disse que era só para "quebrar um galho". Meus amigos ficaram admirados com tamanha habilidade [e ele nem era mecânico, funileiro ou algo assim]. Anos depois, reencontro minha amiga com o mesmo carro e a peça nunca mais se soltou. E, se não me engano, o carro foi vendido tempos depois.
Me lembro também que meu avô era um guia de ruas ambulante. Afinal, ele foi motorista de caminhão e andava por tudo quanto era lado de São Paulo. Para qualquer lugar que eu precisava ir, ele me indicava a direção de cor. Não havia erro, salvo raras exceções. Além disso, ele era um daqueles "curiosos" que mexiam em tudo: elétrica, hidráulica, marcenaria, costura, conserto de panelas... e tudo sempre dava muito certo. Eu o achava muito genial, apesar de ter sido analfabeto.
Essa foi uma das últimas vezes em que estivemos juntos. No dia em que fui para a Alemanha, dei um abraço e ele disse "Essa daí eu não vejo mais". Mas ninguém levou a sério, inclusive eu. Meses depois, eu voltei ao Brasil para umas férias e o reencontrei pela última vez. Na época, eu e meu marido estávamos no começo de namoro e fui apresentá-lo à família. Quando chegamos em casa, o Seu Pedro, no alto de seus 82 anos [já que ele não parava um minuto], estava pintando uma das paredes; eu apresentei ele ao meu marido:
– Vô, este é o Juliano. – O Juliano disse:
– Boa tarde, tudo bom com o senhor? – meu avô, com seu jeito típico:
– Opa. Tô vivo.
Esse foi o primeiro e único encontro dos dois. Poucos dias depois, antes de retornar à Alemanha, ele disse, novamente, antes de eu ir para o aeroporto: "Essa daí não vejo nunca mais". E a promessa se cumpriu.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Planos para as férias
Depois de três anos consecutivos sem férias, provavelmente irei viajar no final do ano. Os motivos da ausência de férias, como muitos sabem, foram a minha vida de bolsista de mestrado e a compra do nosso apartamento. Bem que nos disseram que os primeiros anos são de perrengue total para quem financia um imóvel!
Como essa longa fase está ficando "menos pior", resolvemos viajar desta vez. Dane-se. A vida é curta. Depois desses perrengues todos, de perdas de pessoas queridas e do meu diagnóstico de depressão, resolvemos que uma viagem é muito necessária. Mesmo que seja em dezembro, já que nós dois teremos férias (eu, somente férias coletivas, já que comecei no meu atual Arbeit este ano) nessa época. Mesmo com os preços mirabolantes, dependendo do destino. Mesmo com quase todos os lugares apinhados da "família brasileira". Dane-se. Já fizemos isso outras vezes, na mesma época, e foi muito legal. E é nesse ponto que eu refleti hoje.
A primeira coisa que se faz ao planejar as férias é escolher o local. Pois bem. Desta vez, a decisão do local é minha, já que, da outra vez, fomos a Bonito, lugar que ambos queriam conhecer. Faz anos que eu não vou a uma praia decente. A última vez que vi o mar foi em Niterói, em 2012, quando fui a um congresso na UFF, mas isso não conta. Frequentar uma praia, então, foi nos idos de 2007, quando visitei duas primas em Recife. Faz tempo. Logo, faço questão de irmos ao Nordeste, no litoral, para a resistência inicial do marido. Depois de pesquisar, pesquisar e pesquisar (já que a grana ainda anda curta), encontrei a região de Porto Seguro, na Bahia (Cidade que sempre ignorei por achá-la muito brega, pois me lembra aquele destino de formandos do ensino médio, com aquelas camisetas com o nome de todos escrito "Formandos 2014", aquelas barracas que tocam axé e a lambaeróbica rola solta.). Entretanto, Porto Seguro não é feita só disso. Descobri os arredores, como o Arraial D'Ajuda, Prado, Trancoso, Santa Cruz Cabrália, Santo André (onde a seleção alemã ficou hospedada, rá!). Estou chegando à conclusão que o lugar parece ser maravilhoso. Claro que pretendemos ficar em Arraial, pois estamos receosos de trombarmos com tudo isso que acabei de mencionar. Tudo dependerá da disponibilidade e da grana que poderemos desembolsar. Outro ponto importante: grana.
Ao pesquisar as cidades, pousadas, atrações etc., consultei desde o clássico Guia Quatro Rodas (o mais confiável, completo e imparcial, na minha opinião), passando pelos sites oficiais das cidades até os Trip Advisor e Viaje na Viagem da vida. Que coisa mais irritante ler esses dois últimos! Não há coisa mais irritante ler opinião de gente que se intitula "viajante" em vez de "turista", porque fazer turismo é pra povão, é pejorativo, é tosco. "Porque somos descolados, sabemos dos macetes de fugir da muvuca gerada pelas hordas de famílias com crianças e idosos, e não frequentamos os mesmo lugares que eles." Ora, se você é um "viajante" em um lugar desconhecido, você é o quê, cara pálida? Andarilho? Até um andarilho é turista. Preguiça pura. Mesmo assim, continuei em minha busca por recomendações de pousadas. Definitivamente, não dá para confiar nesse tipo de site. É muito subjetivo. As percepções diferem demais. Num mesmo hotel, havia um "excelente, maravilhoso" e outro "horrível, nunca mais piso lá". Em um desses comentários de "horrível", algum "viajante entendidão" escreveu algo como "o hotel estava repleto de gente vinda pela CVC, então ficou aquele horror". Horror é o preconceito embutido no que esse cara escreveu. Qual o problema em escolher uma empresa que organiza viagens para a "massa" e facilita o pagamento das férias dos seus sonhos? Por que é popular? Eu já viajei duas vezes por meio dela e não houve problema algum, pelo contrário. Não havia ninguém "povão", no sentido pejorativo, mas sim uma galera ordinary people, como eu, como você, que rala, só consegue tirar as férias em dezembro ou janeiro e acaba pagando mais caro por isso. Mas também já encontrei pessoas endinheiradas, estrangeiros, solitários, de tudo um pouco - oque tornou as duas viagens (Foz do Iguaçu e Bonito) muito legais. A única coisa que não gosto é fazer todos os passeios recomendados pelas agências. Aí prefiro dar meus pitacos. Mesmo assim, em um pacote, é superpossível fazer um monte de coisa sem toda a turma que está no mesmo hotel que você. E paga mais barato! Quer coisa melhor? Como as passagens e as diárias são um roubo no fim do ano, vou no que é certo. Pronto.
Ao ler esses comentários preconceituosos, vejo como ainda reina aquela mentalidadezinha provinciana: pacote é coisa de pobre, viajar no fim do ano idem, Baixada Santista é cafona etc., etc. A minha vivência na Europa me ensinou muito a respeito disso: qual o problema em viajar de pacote, fazer um Couchsurfing, acessar o Mitfahrgelegenheit (um site de caronas muito utilizado na Alemanha, é só esse de que consigo me lembrar no momento), fuçar nos sites das companhias aéreas low cost, ficar na casa do amigo do amigo da prima do vizinho (já fiz muito esquema assim e deu muito certo), ir a pé, sei lá, tanto faz. O que importa é viajar. Experienciar, viver, simplesmente. Status de ser um "viajante descolado" é tão porre e démodé...
Ainda não fechamos nosso pacote (rá!), e caso não tenha mais lugar em Arraial d'Ajuda, ficamos em Porto Seguro, oras, mesmo com uma pontinha de receio da horda de adolescentes, do axé e da lambaeróbica. Mas dá pra conhecer Arraial, Trancoso e toda o sossego da região onde o Brasil foi descoberto. Esse é o barato. Afinal, quando as férias são mais que aguardadas, o mínimo vira o máximo.
Como essa longa fase está ficando "menos pior", resolvemos viajar desta vez. Dane-se. A vida é curta. Depois desses perrengues todos, de perdas de pessoas queridas e do meu diagnóstico de depressão, resolvemos que uma viagem é muito necessária. Mesmo que seja em dezembro, já que nós dois teremos férias (eu, somente férias coletivas, já que comecei no meu atual Arbeit este ano) nessa época. Mesmo com os preços mirabolantes, dependendo do destino. Mesmo com quase todos os lugares apinhados da "família brasileira". Dane-se. Já fizemos isso outras vezes, na mesma época, e foi muito legal. E é nesse ponto que eu refleti hoje.
A primeira coisa que se faz ao planejar as férias é escolher o local. Pois bem. Desta vez, a decisão do local é minha, já que, da outra vez, fomos a Bonito, lugar que ambos queriam conhecer. Faz anos que eu não vou a uma praia decente. A última vez que vi o mar foi em Niterói, em 2012, quando fui a um congresso na UFF, mas isso não conta. Frequentar uma praia, então, foi nos idos de 2007, quando visitei duas primas em Recife. Faz tempo. Logo, faço questão de irmos ao Nordeste, no litoral, para a resistência inicial do marido. Depois de pesquisar, pesquisar e pesquisar (já que a grana ainda anda curta), encontrei a região de Porto Seguro, na Bahia (Cidade que sempre ignorei por achá-la muito brega, pois me lembra aquele destino de formandos do ensino médio, com aquelas camisetas com o nome de todos escrito "Formandos 2014", aquelas barracas que tocam axé e a lambaeróbica rola solta.). Entretanto, Porto Seguro não é feita só disso. Descobri os arredores, como o Arraial D'Ajuda, Prado, Trancoso, Santa Cruz Cabrália, Santo André (onde a seleção alemã ficou hospedada, rá!). Estou chegando à conclusão que o lugar parece ser maravilhoso. Claro que pretendemos ficar em Arraial, pois estamos receosos de trombarmos com tudo isso que acabei de mencionar. Tudo dependerá da disponibilidade e da grana que poderemos desembolsar. Outro ponto importante: grana.
Ao pesquisar as cidades, pousadas, atrações etc., consultei desde o clássico Guia Quatro Rodas (o mais confiável, completo e imparcial, na minha opinião), passando pelos sites oficiais das cidades até os Trip Advisor e Viaje na Viagem da vida. Que coisa mais irritante ler esses dois últimos! Não há coisa mais irritante ler opinião de gente que se intitula "viajante" em vez de "turista", porque fazer turismo é pra povão, é pejorativo, é tosco. "Porque somos descolados, sabemos dos macetes de fugir da muvuca gerada pelas hordas de famílias com crianças e idosos, e não frequentamos os mesmo lugares que eles." Ora, se você é um "viajante" em um lugar desconhecido, você é o quê, cara pálida? Andarilho? Até um andarilho é turista. Preguiça pura. Mesmo assim, continuei em minha busca por recomendações de pousadas. Definitivamente, não dá para confiar nesse tipo de site. É muito subjetivo. As percepções diferem demais. Num mesmo hotel, havia um "excelente, maravilhoso" e outro "horrível, nunca mais piso lá". Em um desses comentários de "horrível", algum "viajante entendidão" escreveu algo como "o hotel estava repleto de gente vinda pela CVC, então ficou aquele horror". Horror é o preconceito embutido no que esse cara escreveu. Qual o problema em escolher uma empresa que organiza viagens para a "massa" e facilita o pagamento das férias dos seus sonhos? Por que é popular? Eu já viajei duas vezes por meio dela e não houve problema algum, pelo contrário. Não havia ninguém "povão", no sentido pejorativo, mas sim uma galera ordinary people, como eu, como você, que rala, só consegue tirar as férias em dezembro ou janeiro e acaba pagando mais caro por isso. Mas também já encontrei pessoas endinheiradas, estrangeiros, solitários, de tudo um pouco - oque tornou as duas viagens (Foz do Iguaçu e Bonito) muito legais. A única coisa que não gosto é fazer todos os passeios recomendados pelas agências. Aí prefiro dar meus pitacos. Mesmo assim, em um pacote, é superpossível fazer um monte de coisa sem toda a turma que está no mesmo hotel que você. E paga mais barato! Quer coisa melhor? Como as passagens e as diárias são um roubo no fim do ano, vou no que é certo. Pronto.
Ao ler esses comentários preconceituosos, vejo como ainda reina aquela mentalidadezinha provinciana: pacote é coisa de pobre, viajar no fim do ano idem, Baixada Santista é cafona etc., etc. A minha vivência na Europa me ensinou muito a respeito disso: qual o problema em viajar de pacote, fazer um Couchsurfing, acessar o Mitfahrgelegenheit (um site de caronas muito utilizado na Alemanha, é só esse de que consigo me lembrar no momento), fuçar nos sites das companhias aéreas low cost, ficar na casa do amigo do amigo da prima do vizinho (já fiz muito esquema assim e deu muito certo), ir a pé, sei lá, tanto faz. O que importa é viajar. Experienciar, viver, simplesmente. Status de ser um "viajante descolado" é tão porre e démodé...
Ainda não fechamos nosso pacote (rá!), e caso não tenha mais lugar em Arraial d'Ajuda, ficamos em Porto Seguro, oras, mesmo com uma pontinha de receio da horda de adolescentes, do axé e da lambaeróbica. Mas dá pra conhecer Arraial, Trancoso e toda o sossego da região onde o Brasil foi descoberto. Esse é o barato. Afinal, quando as férias são mais que aguardadas, o mínimo vira o máximo.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Uma manhã de fúria
Hoje, bem cedinho, me senti naquele filme do Michael Douglas "Um dia de fúria".
Ao sair de casa com o meu marido, na rotina de sempre, fomos até a faixa de pedestres que existe em nossa rua para atravessarmos. Não sei porquê, mas, desde ontem, o trânsito está horroroso nos lados do Jabaquara - inclusive no corredor de ônibus das avenidas da região - e havia uma fila imensa de carros na nossa rua. Estávamos atravessando e, no meio da faixa, veio um carro avançando para cima de nós e parou em cima da faixa porque o trânsito da avenida não permitiu que o cara entrasse nela. Além de avançar para cima de nós, o cara serpenteava com seu carro procurando um beco qualquer para escapar. Detalhe que ele não estava com pressa. Só havia ele e uma mulher no automóvel. Não havia motivo algum para essa palhaçada. Ao parar, meu marido soltou um "Olha a faixa, corno!". Eu ri e falei algo como "Seu bosta". Não sei o que o cara ficou resmungando, mas resmungou. Confesso que bateu um medinho. Passou.
Entramos em um ônibus em direção ao metrô e encontramos uma amiga querida que há tempos não víamos. Tudo ótimo, mas o trânsito estava um horror na região pelo segundo dia consecutivo. Descemos no meio do caminho porque chegaríamos primeiro que o ônibus na estação. A uma certa altura, ao atravessarmos uma pequena faixa de pedestres em uma esquina da avenida da estação, quase ao fim dela, veio um desses carros sedan, todo pomposo, avançando para cima de mim, e eu estando fazendo o gesto para atravessar. O sangue ferveu. Vi que era uma mulher sozinha dirigindo. Não tive dúvida: arremessei minha sacola com meu par de sapato de salto na lataria do carro. Só sei que fez aquele barulho e saí andando. A mulher saiu do carro e ficou gritando "Covarde! Vem aqui agora! Covarde!" E voltou pro seu possante com ar-condicionado. Em meio à minha fúria, eu ouvia vagamente meu marido batendo boca com a mulher, nem notei o que era. Nossa amiga ria. Porque foi uma cena engraçada, no final das contas. Algumas pessoas olhavam para mim com expressões do tipo "que maluca, que surtada". Outros sorriam para mim, meio que aprovando o que fiz. Por incrível que pareça, eu não tive vergonha da minha atitude. Na verdade, foi catártica, libertadora. Senti um certo alívio, até. Pois encaramos com esse tipo desrespeitador, usuários da lei de Gerson (coitado do Gerson), todo o santo dia. A individualidade e a falta de noção e cidadania chegam ao ponto de pessoas comuns, como eu, surtarem, terem seu dia de Michael Douglas. Confesso que curti.
Pena que eu só tinha uma sacola com sapatos... Cadê o taco de beisebol?
Ao sair de casa com o meu marido, na rotina de sempre, fomos até a faixa de pedestres que existe em nossa rua para atravessarmos. Não sei porquê, mas, desde ontem, o trânsito está horroroso nos lados do Jabaquara - inclusive no corredor de ônibus das avenidas da região - e havia uma fila imensa de carros na nossa rua. Estávamos atravessando e, no meio da faixa, veio um carro avançando para cima de nós e parou em cima da faixa porque o trânsito da avenida não permitiu que o cara entrasse nela. Além de avançar para cima de nós, o cara serpenteava com seu carro procurando um beco qualquer para escapar. Detalhe que ele não estava com pressa. Só havia ele e uma mulher no automóvel. Não havia motivo algum para essa palhaçada. Ao parar, meu marido soltou um "Olha a faixa, corno!". Eu ri e falei algo como "Seu bosta". Não sei o que o cara ficou resmungando, mas resmungou. Confesso que bateu um medinho. Passou.
Entramos em um ônibus em direção ao metrô e encontramos uma amiga querida que há tempos não víamos. Tudo ótimo, mas o trânsito estava um horror na região pelo segundo dia consecutivo. Descemos no meio do caminho porque chegaríamos primeiro que o ônibus na estação. A uma certa altura, ao atravessarmos uma pequena faixa de pedestres em uma esquina da avenida da estação, quase ao fim dela, veio um desses carros sedan, todo pomposo, avançando para cima de mim, e eu estando fazendo o gesto para atravessar. O sangue ferveu. Vi que era uma mulher sozinha dirigindo. Não tive dúvida: arremessei minha sacola com meu par de sapato de salto na lataria do carro. Só sei que fez aquele barulho e saí andando. A mulher saiu do carro e ficou gritando "Covarde! Vem aqui agora! Covarde!" E voltou pro seu possante com ar-condicionado. Em meio à minha fúria, eu ouvia vagamente meu marido batendo boca com a mulher, nem notei o que era. Nossa amiga ria. Porque foi uma cena engraçada, no final das contas. Algumas pessoas olhavam para mim com expressões do tipo "que maluca, que surtada". Outros sorriam para mim, meio que aprovando o que fiz. Por incrível que pareça, eu não tive vergonha da minha atitude. Na verdade, foi catártica, libertadora. Senti um certo alívio, até. Pois encaramos com esse tipo desrespeitador, usuários da lei de Gerson (coitado do Gerson), todo o santo dia. A individualidade e a falta de noção e cidadania chegam ao ponto de pessoas comuns, como eu, surtarem, terem seu dia de Michael Douglas. Confesso que curti.
Pena que eu só tinha uma sacola com sapatos... Cadê o taco de beisebol?
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Dos dilemas da vida
Todos nós nos deparamos com os dilemas ao longo da vida. Maiores ou menores, mas são os eternos dilemas. Os meus dilemas mais críticos do momento são: mudo ou não de profissão? Troco de emprego ou não? Eles são angustiantes, mas...
... existe outro dilema que venho ruminando há algum tempo [OK, ruminar é um verbo um tanto feio, mas é o que veio agora] e voltou forte hoje, mais precisamente no momento pós-almoço: engravido ou faço um doutorado?
Para quem é do meio acadêmico, é sabido que uma tese não deixa de ser uma gestação. De quatro anos, mas é uma gestação. Uma gestação simbólica, metafórica. E a gestação "literal" todos nós sabemos qual é. Para mim, esses são dois dilemas cruciais do momento. No entanto, antes de resolvê-los, preciso resolver um anterior e não menos urgente: a depressão.
Tem gente que lê isso aqui que já sabe e tem gente que está sabendo disso agora. Sim, eu estou deprimida e não nego - pelo contrário. Acredito que uma das formas mais eficazes de combater essa doença é assumindo que a possui. Tenho a plena convicção de que diversos fatores relacionados a criação, estilo de vida, crenças, experiências e, claro, à organicidade. Eu sempre tive consciência de que algo estava errado, desde muito tempo. Mas, nos últimos tempos, eu vinha somatizando tudo, em qualquer lugar (metrô, casa, lugares públicos, trabalho): taquicardias, quedas bruscas de pressão, crises de labirintite, tremedeiras, dentre outros sintomas. Achava que era "somente" estresse. Aí é que me enganei. Procurei ajuda psicológica e, há alguns meses, venho fazendo terapia. Mas, ainda assim, não foi o suficiente: a minha terapeuta me recomendou procurar um psiquiatra. Eu gelei. Veio aquele preconceito besta na hora: psiquiatra é médico para quem é bipolar, esquizofrênico ou com depressão severa. Imagine, eu não preciso, só a terapia basta. Basta mesmo? Eu vi que, neste momento, não. Fui ao psiquiatra. Confesso que não curti muito, mas acredito que não deva ser lá muito agradável mesmo para qualquer um. Quando o médico me receitou um antidepressivo (leve, mas antidepressivo), gelei de novo. Novamente veio aquela enxurrada de pensamentos preconceituosos do tipo "vai ficar viciada", "não vai ter mais libido", "vai ficar chapada, lesada" etc. No dia seguinte, entrei em contato com amigas que estão passando pelo mesmo problema que eu e com uma amiga muito querida que manja demais de fármacos. Não tem jeito: eu vou tentar o medicamento. Ainda não comprei o remédio, mas vou fazer isso logo. Como não tenho forças para nada no momento, pode ser que o remédio me ajude (por pouco tempo, de preferência). Não tenho forças para agir, mas ainda tenho disposição de pensar coisas como as que mencionei no começo.
Estou me deparando com um importante dilema, contudo, antes de encará-lo, eu preciso de saúde mental em primeiro lugar.
... existe outro dilema que venho ruminando há algum tempo [OK, ruminar é um verbo um tanto feio, mas é o que veio agora] e voltou forte hoje, mais precisamente no momento pós-almoço: engravido ou faço um doutorado?
Para quem é do meio acadêmico, é sabido que uma tese não deixa de ser uma gestação. De quatro anos, mas é uma gestação. Uma gestação simbólica, metafórica. E a gestação "literal" todos nós sabemos qual é. Para mim, esses são dois dilemas cruciais do momento. No entanto, antes de resolvê-los, preciso resolver um anterior e não menos urgente: a depressão.
Tem gente que lê isso aqui que já sabe e tem gente que está sabendo disso agora. Sim, eu estou deprimida e não nego - pelo contrário. Acredito que uma das formas mais eficazes de combater essa doença é assumindo que a possui. Tenho a plena convicção de que diversos fatores relacionados a criação, estilo de vida, crenças, experiências e, claro, à organicidade. Eu sempre tive consciência de que algo estava errado, desde muito tempo. Mas, nos últimos tempos, eu vinha somatizando tudo, em qualquer lugar (metrô, casa, lugares públicos, trabalho): taquicardias, quedas bruscas de pressão, crises de labirintite, tremedeiras, dentre outros sintomas. Achava que era "somente" estresse. Aí é que me enganei. Procurei ajuda psicológica e, há alguns meses, venho fazendo terapia. Mas, ainda assim, não foi o suficiente: a minha terapeuta me recomendou procurar um psiquiatra. Eu gelei. Veio aquele preconceito besta na hora: psiquiatra é médico para quem é bipolar, esquizofrênico ou com depressão severa. Imagine, eu não preciso, só a terapia basta. Basta mesmo? Eu vi que, neste momento, não. Fui ao psiquiatra. Confesso que não curti muito, mas acredito que não deva ser lá muito agradável mesmo para qualquer um. Quando o médico me receitou um antidepressivo (leve, mas antidepressivo), gelei de novo. Novamente veio aquela enxurrada de pensamentos preconceituosos do tipo "vai ficar viciada", "não vai ter mais libido", "vai ficar chapada, lesada" etc. No dia seguinte, entrei em contato com amigas que estão passando pelo mesmo problema que eu e com uma amiga muito querida que manja demais de fármacos. Não tem jeito: eu vou tentar o medicamento. Ainda não comprei o remédio, mas vou fazer isso logo. Como não tenho forças para nada no momento, pode ser que o remédio me ajude (por pouco tempo, de preferência). Não tenho forças para agir, mas ainda tenho disposição de pensar coisas como as que mencionei no começo.
Estou me deparando com um importante dilema, contudo, antes de encará-lo, eu preciso de saúde mental em primeiro lugar.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Lampejo
Acabei de revisar esse trecho aqui:
"A consciência é sempre infeliz. [...] Trata-se de uma falta, uma carência, no sentido da Fenomenologia do espírito. A consciência é a tentativa de repor essa falta. A tragédia da consciência é: quanto mais ela sabe, mais ela quer saber."
Ou seja, quanto mais se sabe, mais infeliz?! Acho que é bem por aí mesmo. Porque refletir dói. Pensar dói. Ter consciência, então... Pessimismo? Pode ser, embora todos esses fatores convirjam em um anseio por mudança. [E mudar também pode doer, mas antes a dor da mudança do que a dor de ter a consciência de que não mudou.]
"A consciência é sempre infeliz. [...] Trata-se de uma falta, uma carência, no sentido da Fenomenologia do espírito. A consciência é a tentativa de repor essa falta. A tragédia da consciência é: quanto mais ela sabe, mais ela quer saber."
Ou seja, quanto mais se sabe, mais infeliz?! Acho que é bem por aí mesmo. Porque refletir dói. Pensar dói. Ter consciência, então... Pessimismo? Pode ser, embora todos esses fatores convirjam em um anseio por mudança. [E mudar também pode doer, mas antes a dor da mudança do que a dor de ter a consciência de que não mudou.]
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