domingo, 28 de abril de 2013

Kamikazes


Somos preparados para morrer. Se não caímos numa imensidão de corrente sanguínea, somos barrados por uma espécie de capuz de borracha, ou – o que é pior – somos bloqueados por um escudo gigantesco o qual, ao trombarmos nele, a morte é certa.
Ultimamente ouvimos muito a respeito de um tal de Tâmisa. Certa vez, os mais velhos e já falecidos me disseram que esse era um nome de um rio. Mas o tal do Tâmisa que conhecemos por aqui  há algum tempo é o que forma o escudo de hormônios gigantesco que impede nossa entrada no óvulo da parceira do nosso hospedeiro. O que faz de nosso trabalho extremamente inútil; mas, fazer o quê? Recebemos essa preparação para o suicídio coletivo. 
No entanto,  o que ainda nos alegra é que existem seres humanos que não se utilizam desses métodos para impedir nossa entrada. Alguns utilizam temporariamente, outros, por convicções religiosas, abolem firmemente; o que nos deixa muito contentes, mesmo se morrermos em combate, pois, pelo menos, estamos tentando atingir nosso objetivo.
Eu espero que a minha vez chegue quando a nossa receptora parar de incluir esse Tâmisa na nossa rotina de trabalho. Se não chegar até lá, morro feliz por ter caído na imensidão da corrente sanguínea e ter tentado cumprir o meu papel.


*Ao vasculhar algumas coisas da minha estante, me deparei com a pasta do curso de escrita criativa que fiz em 2011 (parece que fiz na semana passada, tamanha a velocidade do tempo) e encontrei alguns exercícios bem divertidos, como este. Postarei outros que ficaram bem interessantes (nessa leitura atual).

terça-feira, 19 de março de 2013

Ah, a ciência...


Ah, a ciência... 

Por causa dela estive afastada do meu ritual de exorcismo que é este blog. Antes de qualquer coisa, segue um link que me fez refletir acerca da "gaia ciência" (tomando emprestado o título da obra do Nietzsche). O texto é da megaconhecida neurocientista Dra. Suzana Herculano-Houzel. Vale muito a pena a leitura.

           http://www.posgraduando.com/pos-graduacao/voce-quer-mesmo-ser-cientista


Quando li esse artigo (e já reli algumas outras vezes), confesso que deu vontade de jogar tudo para o alto e "me vender ao sistema". Pois é essa a vontade que dá com quase todo mundo que faz mestrado/doutorado neste país. Vender-se ao sistema para viver com a mínima dignidade. Ou não.

São tantos os percalços pelos quais o pós-graduando passa que ele deveria ser chamado de "guerreiro". Sim, porque quem faz pesquisa no Brasil é um sofredor e guerreiro, pelas conhecidas faltas de recursos, de bolsas, de equipamentos, de bibliotecas razoáveis... É lugar-comum dizer que a sociedade não tem a mínima noção do que ele faz, mas quer que ele retorne todo o investimento que ela dá por meio dos impostos pagos. E somos cobrados pelas universidades em que estudamos para fazer o tal "ROI" (return on investment, utilizando um jargão bem escroto de "business"). 

Ao mesmo tempo que partilho da mesma opinião da professora Suzana — de largar a ciência e ganhar dinheiro bem mais fácil fazendo marketing ou virar rata de mídia social —,ainda permanece aquele sentimento de "estou fazendo algo em prol de", "pelo menos estou pensando por milhares que mal sabem o que é isso". Soa um tanto arrogante, contudo, é bem a real. Hoje, tive esse pensamento durante uma palestra proferida por um grande linguista e professor aposentado lá da faculdade. No meio de sua fala, ele afirmou e reafirmou: "somos nós, pesquisadores, quem pensamos este país. Não adianta. Por mais que governos abandonem a ciência em seus planos, nós estaremos lá, em nossos 'cantinhos', refletindo a nossa sociedade, o nosso país." Espero que isso fique gravado em minha memória para eu não esquecer quando a neurose e o desânimo baterem.

Acredito que o sentimento de boa parte dos pesquisadores (principalmente dos estudantes) como eu é o do paradoxo: ao mesmo tempo que fico questionando a "utilidade" de minha pesquisa —; ouvindo as bancas destruírem teu trabalhos; sofrendo as agruras de quem atualmente vive com a bolsa da Capes; sofrendo "bloqueios criativos" com a minha escrita, achando que o trabalho do colega é sempre melhor que o meu —, por outro lado, a sensação de "relativo poder" e satisfação — quando escrevo algo que é elogiado pela orientadora ou por algum outro professor; quando vou à biblioteca na hora que quero; quando participo de algum evento e daí conheço novos colegas; quando converso com os que já conheço e trocamos sugestões bibliográficas e visões de mundo — é indescritível. Sentimentos contraditórios, porém inseparáveis.

Possivelmente, por causa da ciência e do estresse advindo dela, eu tive minha primeira crise de labirintite. A uma semana do meu exame de qualificação, fiquei completamente "bêbada"; uma semana inteira tendo vertigens que me impossibilitaram de fazer qualquer coisa. Claro que me cuidei e fiquei bem para o exame, mas serviu o alerta.

Conclusão: ainda não sei. Estou em plena fase das dúvidas após o exame de qualificação. Não sei para qual rumo seguir. Se mantenho a mesma teoria, a mesma análise linguística, não sei. "Só sei que nada sei", é o que dizem. A única certeza é a que tenho MUITO trabalho e muitos ajustes a serem feitos.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Rito de passagem?

Hoje à tarde saiu a lista de aprovados do vestibular mais concorrido do País, o da Fuvest, para ingresso na USP e na Santa Casa de SP. Felicidade. Choro de alegria. Caras pintadas nos cursinhos. Na segunda-feira, saiu a lista de aprovados da Unesp. Os mesmos sentimentos.
Na última segunda fiquei muito contente em saber que minha prima está entre os aprovados em Zootecnia num dos campi da universidade. Eu até disse a ela, brincando, que é a segunda neta da nossa avó a entrar na faculdade. Baita orgulho. Ainda mais que esse curso da Unesp é muito bom. Sei disso, pois cheguei a cursar um semestre de Agronomia no campus de Botucatu. E é disso que me recordei nesse dia.

Corta.

Ao mesmo tempo que fiquei muito contente por minha prima, eu fiquei preocupada.

Nesses dias em que são divulgadas as listas dessas universidades, me dá uma aflição tremenda. O que é mostrado é a alegria, as caras pintadas inocentemente e os pulos dos estudantes pelos grandes cursinhos. Principalmente nas propagandas deles. Afinal, é o resultado do trabalho deles, por que não? Entretanto, o que não é mostrado é o day after dessa alegria toda até o dia da matrícula na faculdade.

Ninguém mostra os "nomes" humilhantes a que os estudantes são "batizados". Ninguém mostra a humilhação que os "bixos" sofrem dos "poderosos veteranos", um bando de animais travestidos de estudantes de graduação de USP, Unesp e Unicamp. Mesmo que esse calouro não queira participar dos famigerados trotes, não adianta, ele é obrigado a participar – principalmente se ele vai morar em uma república. As repúblicas, em sua maioria, são qualquer coisa, menos casas ou apartamentos. Ninguém fala da intimidação, da violência física e psicológica, do assédio moral (e também sexual), entre outros. Ninguém fala dos comas alcoólicos que dezenas desses "bixos" são acometidos, porque foram obrigados a beber para agradar os seus veteranos.

As universidades dizem que o trote em suas dependências é proibido e que não podem fazer nada do que rola fora dos campi. Isso é verdade. E isso é caso de polícia. E por que esses atos não são denunciados? Por medo. Por conta do que mencionei antes. A partir do "nome" que você recebe, você é único e todos, mesmo indiretamente, te conhecem. Ai de você denunciar. A represália é certa. As poucas atitudes corajosas que vi quando estive em Botucatu foi a de alguns pais, indignados e amedrontados, denunciar na rádio local e na afiliada da Globo da região. Deu certo? Não me recordo. A mídia faz o alarde por uma semana ou pouco mais, mas depois tudo é esquecido novamente. Até a próxima morte por afogamento, até a próxima overdose, coma alcoólico, queimaduras graves, dentre outras coisas.

A grande burrice que fiz ao me matricular na Unesp foi ter ido para uma república. E das barra-pesadas. Caso de polícia. Tive medo, muito medo naquela época. Diante de tanta humilhação e estresse, fiquei doente - e foi muito pior. Diziam que eu estava com frescura, que era coisa de "bixete nojenta". O meu desespero foi tanto que, por sorte, consegui uma casa para alugar e saí dessa república praticamente fugindo. Claro que ficaram com ódio de mim, tanto que nem podiam ouvir falar o "meu nome". E é claro que eu fiquei com medo por algum tempo, com temor de represálias. Por que a maioria desses "veteranos" perseguem, sim. Livre-arbítrio é algo que não existe quando se é primeiro-anista. Liberdade, pra quê? Afinal, "bixo" não é nada, não tem que gostar de nada, não tem que ter opinião pra nada.
Reza a lenda que há a "libertação dos bixos" em  13 de maio, uma analogia clara à Abolição dos Escravos. Outra mentira. Se a pessoa mora em república, isso perdurará até as férias de final de ano, quando todos, com a maior cara de pau, voltam para suas cidades, suas casinhas, seus papais e mamães.
Essa primeira semana é crucial na vida de qualquer aluno que ingressa nessas universidades. É possível perceber o tipo de curso que terá e, principalmente, com que tipo de gente irá "conviver". Não me arrependo, de forma alguma, de ter abandonado esse curso e ter feito o que realmente gosto. O que mais me revolta é que esse tipo de coisa ainda se perpetua, e com ainda mais crueldade. Eu ficava perplexa com a situação em que muitos colegas meus ficavam, e achavam "legal": – "Ah, mas é uma forma de integração. A gente não sabe nada da cidade e da faculdade e precisamos da ajuda deles, né?" Não. Quantas e quantas vezes saíamos das aulas abarrotados nos poucos carros de nossos colegas de turma, com medo de que fôssemos "sequestrados" para fazermos pedágio para comprar pinga para veterano vagabundo ou para fazer faxina na casa de veteranos estranhos? Me recordo muito bem da vez em que uma colega deu carona para DEZ em seu Uno. Sério. E foi essa mesma colega que me ajudou na minha "fuga" da república. Até hoje não me esqueço disso e sou grata a ela.

E toda essa palhaçada me faz lembrar da tragédia no Rio Grande do Sul. Santa Maria é uma cidade universitária famosíssima, de cursos ótimos e docentes idem. O que isso tem a ver com o tema? Bastante.
Da lista dos alunos mortos no incêndio, a maioria era de que ano? Primeiro. Segundo semestre. E a maioria era de cursos como Agronomia, Medicina Veterinária e Tecnologia de Alimentos. Os dois primeiros são conhecidos por seus requintes de crueldade nos trotes. Quem dirá que esses alunos não foram obrigados a ir naquele lugar nesse dia? Sim, pois até nisso o "bixo" não tem escolha. Ele TEM de ir às festas com os veteranos, sejam elas quais forem. Mas se o "bixo" gosta de metal e os veteranos de sertanejo universitário? Isso não importa, não é mesmo? Quem garante que os meninos e meninas que morreram estavam lá por que gostavam daquela balada? Agora só nos resta lamentar e ficar enlutados.

 Engraçado que esse tipo de "ritual" é um reflexo da sociedade brasileira, tão arcaica, tão troglodita, tão imbecil. É esse tipo de gente que vai "defender as florestas e os animais", "plantar soja", atender à população dos hospitais, dar aula nas universidades... É esse tipo que humilha, que bate, que comete crimes os quais, quase sempre, são deixados de lado.

Por mais que o indivíduo tenha "cabeça boa", o risco de cair nas mãos desses imbecis é grande. Pois tem a questão financeira e, também, de aceitação. Todo mundo quer ser aceito. Contudo, essa não é a melhor forma, para pessoas com o mínimo de normalidade psicológica. É o lado mais selvagem do ser humano que é aflorado nessa relação de poder entre "bixo e veterano". E o poder é bom, dá status, não é verdade? O que me resta é a preocupação com minha prima e com os outros calouros e a aflição por rememorar esse período tão traumático da minha vida.

P.S.: Quero ressaltar que isso não é regra geral. Claro que nem todo mundo participa dessa aberração social chamada "trote". Mas vale o alerta.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"O mundo segundo os brasileiros"


Na última segunda-feira, parei para assistir a um programa chamado "O Mundo Segundo os Brasileiros", na TV Bandeirantes. Já havia parado para assistir a alguns trechos no ano passado, mas nunca conseguia continuar ver tanta baboseira junta. Mas, desta vez, resolvi aturar, até por conta da minha insônia.
Para quem não conhece, o programa fala sobre os brasileiros que vivem em diferentes países mundo afora e mostra o cotidiano daqueles lugares sob a perspectiva desses brasileiros escolhidos para gravarem seus depoimentos. Claro que só foi mostrado, até agora, os de "Primeiro Mundo", exceto a China.

Como muitos sabem, minha pesquisa de mestrado envolve os traços das culturas alemã e brasileira no discurso jornalístico de revistas semanais de grande circulação nos dois países. Portanto, qualquer coisa relacionada ao tema  me interessa demais. O estudo é na perspectiva da linguística, mas não dá para separar da sociologia, da antropologia, dos estudos culturais (essa vertente é quase inexistente por aqui, e é de origem anglo-saxônica, de autores como Stuart Hall e Raymond Williams) e da comunicação. Enfim, é uma miscelânea bem interessante que dá resultados.

Voltando ao programa, o que deixa enfurecida é o recorte feito nele. Explico. 

A primeira vez que vi esse programa foi justamente o episódio dos brasileiros em Berlim. A edição mostrou diversos jovens que trabalham com design, arquitetura, publicidade ou intercambistas notadamente cheios da grana dos pais. Acho que uma ou duas pessoas trabalhavam como garçonete e, claro, uma menina morava com seu namorado alemão. Pode até ser birra minha, mas, brasileiro (ou qualquer outro imigrante não europeu) que trabalha somente em sua área de estudo é uma bela mentira. Além disso, o programa sempre mostra a brasileira que pegou o gringo otário ou a brasileira que casou com um brasileiro que tem a cidadania daquele país. Ou seja, tudo pela ótica da esperteza, da malandragem. Assim como no episódio que assisti na segunda-feira, sobre Madri, na Espanha. Todos os personagens eram bem-sucedidos, trabalham naquilo que amam (dança flamenca, contabilidade, moda, artes plásticas, jornalismo) e são muito felizes por lá. Ah, e é claro, não querem voltar ao Brasil, mesmo com o bicho pegando na zona do euro - ainda mais na Espanha! 
O que me dava urticárias era o suposto "sotaque" dessa gente. Não sou especialista em fonética/fonologia, mas quem é que adquire o sotaque da língua local após um ano ou, até mesmo, quatro anos de morada no país? Ainda mais em Madri, um lugar que tem tanto brasileiro quanto o próprio Brasil! Por experiência própria, é supernormal adquirir algumas palavras da língua local, caso você lide com ela o bastante. É até divertido. Na Alemanha, é comum falarmos "te encontro na U-Bahn X", "vou fazer uma Ausbildung", "pegar um Tram ou uma S-Bahn", entre outras coisinhas. Agora, falar com a melodia da língua local sem ter a fluência dela, é ridículo. E foi isso o que vi nos programas sobre Berlim e Madri. No programa de Berlim, eu dei gargalhadas com uma garota intercambista (detalhe, o papai pagava todas as despesas) que estava lá só há uns 6 meses tentando falar com a tonalidade da língua alemã, que não tem nada a ver com a sonoridade do português! E no programa de Madri? Aí eu queria cortar os meus pulsos! A mulher falava as palavras com a acentuação espanhola, como se fosse uma. E teve uma vez também que vi rapidamente um episódio de uma brasileira em Taiwan que arranhava um inglês macarrônico com um cantonês mais tosco ainda (e falando, claro, um português com o sotaque cantonês). Agora, fazendo o que em Taiwan, eu não sei. O que se faz em Taiwan se você não é correspondente internacional, diplomata ou funcionário de empresa aérea? Boa pergunta. Enfim, se essas pessoas vivessem isoladas na Sibéria, somente com os nativos, eu até entenderia, mas, na Espanha?! Lugar que tem mais brasileiro por metro quadrado além de Portugal? A quem quer enganar, cara pálida?
E a cada depoimento, o discurso do "sou malandro, peguei um gringo" era evidente. O discurso provinciano, colonizado, de que absolutamente TUDO de lá é fabuloso e que o Brasil é uma droga, "mas tenho saudade dele e da minha família". Ah, tá.

Outra coisa que vi nos dois programas e que já vi na minha temporada na Alemanha é o nível de escrotice que esse brasileiro médio tem em seu comportamento no exterior, quando ele comenta a respeito dos bairros dessas cidades e de seus moradores. Em Berlim, só se falava em Prenzlauer Berg, como se essa fosse a única faceta da cidade. Prenzlauer Berg é como a Vila Madalena de São Paulo, repleta de bares e restaurantes "cool" e cara para morar. E todos os brasileiros do episódio moravam em Prenzlauer Berg. Aham. A mesma coisa em Madri. O pior foi um "artista plástico" dizer que preferia morar no bairro X e pagar caro por ele porque lá tem "mais cara de Europa, tem mais espanhóis mesmo, melhor do que morar onde morei até um tempo atrás, que só tem equatorianos, peruanos, africanos, colombianos..." Fala mais carregada de preconceito, impossível. Muito provavelmente ele deve ter "pegado" um espanhol que o banca com suas compras na Dior, como foi mostrado. A pessoa em questão mal sabia falar espanhol – e olha que o meu espanhol é praticamente nulo –, mas carregava no sotaque só para mostrar que "estava integrada". Claro. O pior, ainda, é educar os filhos de acordo com os costumes locais, esquecendo-se totalmente da sua língua e de sua cultura. E foi o que vi nesse programa também. Mulheres que ensinam seus filhos a falarem espanhol em detrimento do português. Seria medo de perder o marido e a cidadania conquistada com o casamento?



O pior de tudo é esquecer de onde vem. Por mais tempo que se passe naquele país, você nunca será um deles, mesmo se casando e tendo filhos por lá. Mesmo que tente apagar sua identidade. Aliás, a identidade é algo que não temos muito forte. Durante minha temporada fora, percebi claramente que não temos claramente uma "identidade brasileira", a não ser por meio do futebol e do Carnaval. A identidade é que une um país, um povo; coisa que não temos por aqui. E o problema é renegar o local de onde vem e integrar-se à cultura local como um nativo - outra coisa que percebi demais quando estive fora.

Diante dessas aberrações que vi e das constatações a que cheguei, esse "programa de entretenimento" só me fez aguçar ainda mais a veia pesquisadora. E, com certeza, em breve, farei algum estudo relacionado a isso. E não perdendo a "identidade brasileira". Contudo, o que me entristece é que esse tipo de visão está sendo e será perpetuado por aqui, já que a nossa mídia é puramente colonizada, com a síndrome de vira-lata.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Eu vi, aprendi e não esqueci

Segundo o calendário gregoriano, 2012 está chegando ao fim. Independentemente do tipo de calendário – seja ele o gregoriano, muçulmano, judaico, maia, hindu, ou qualquer outro –, o tempo é de encerramento de ciclos e de reflexão.

Em quase dois meses de ausência, coisas aconteceram comigo e o tempo (ou a falta de) foi um tanto cruel nesse aspecto.
  • Desde a última postagem, eu tive que me dedicar ao meu relatório de qualificação do mestrado, entreguei-o no último dia do prazo por aguardar que a minha orientadora desse o seu aval (ai, que agonia) e meu exame será realizado no final de fevereiro. Sendo aprovada no exame, 2013 será meu último ano do mestrado e terei de me dedicar substancialmente no final da pesquisa.
  • Adquirimos algumas coisas essenciais para o nosso apartamento, o que, momentaneamente, compromete a renda para coisas do tipo viajar no final do ano, jantar fora e comprar itens "supérfluos", como os nossos filmes e livros. Mas está valendo: o que importa é a nossa conquista mesmo diante da adversidade que foi esse 2012 para mim.
  • Ao tomar banho, descobri um caroço no meu seio esquerdo e fiquei preocupada. A princípio, pensei que fosse algum dos sintomas da TPM (sei lá, cada mulher tem seu sintoma maluco nessa hora!). Uma semana depois, ele ainda continuava lá. Pedi ao marido para conferir. O caroço ainda estava lá, onipresente. A preocupação foi elevada ao quadrado e pedi indicações de algum especialista para amigas e conhecidas. Primeiro, fui à médica que cuida de mulher (ótima, diga-se de passagem) indicada por uma amiga e ela não gostou do que tocou. Logo, ela pediu exames urgentes: ultrassom mamária, mamografia (mesmo sem ter a idade ideal) e hemogramas específicos, além de um encaminhamento a um especialista. Eu saí do consultório em pânico. Não sabia para quem ligar nem para onde ir. Só sei que não queria voltar para casa naquele momento. Ao ligar para o meu marido, não aguentei e caí em prantos, tamanho o medo que eu tinha. A minha amiga que me indicou a médica me ligou tentando me tranquilizar, porém o susto é tão grande que ele se sobressai às tentativas de amenizá-lo. Fiz os exames e fui ao especialista. Sozinha, morrendo de medo. Mesmo indicado, detestei o médico. Se eu tivesse ido ao SUS, talvez eu tivesse sido melhor atendida, sinceramente. Saí do consultório me sentindo um lixo. Mas, pelo menos, nesta consulta, foi dito que, provavelmente, o que eu tinha era algum cisto de água ou de gordura, nada de neoplasia (= tumor). E que eu tinha de fazer a tal da punção mamária. Feita a punção, aguardei por longos 10 dias. Ao ler o resultado antes do médico (tamanha a ansiedade), vi que o resultado foi negativo para neoplasia e, segundo os parcos termos técnicos que conheço, é mesmo um cisto de gordura. O que será feito ainda não sei, pois não vou mais àquele médico e estou à procura de outro. Mas com essa história de festas de fim de ano, o meu pedido de cancelamento do meu plano de saúde e a migração para o do meu marido estou na expectativa se farei uma biópsia ou uma cirurgia. Prefiro a primeira opção. Detalhe: o caroço foi descoberto em outubro, e, naquele mês, houve uma maciça campanha sobre o câncer de mama e ouvi diversas histórias de mulheres que descobriram a doença da maneira mais besta possível e, inclusive, na idade mais improvável de receber um diagnóstico desse tipo. Logo, a minha preocupação elevou-se à décima potência.

Sei que é lugar-comum dizer isso, mas estamos suscetíveis a qualquer coisa quando menos se espera – mesmo quando há cuidados e preparação prévia – e que não nos devemos nos apegar a coisas pequenas.

O que vi, aprendi e não esqueci em 2012:

  • A ingratidão: aquela coisa de "ajudar sem esperar nada em troca" é um tanto errada dependendo do contexto. Por duas vezes, ajudei duas pessoas que estavam passando por dificuldades. Sem me gabar, mas, se não fosse pela minha ajuda, elas não estariam onde estão felizes, contentes e empregadas. O que me deixa furiosa é que, na hora da dificuldade, você é a amiga, a pessoa para ajudá-la, a outra pessoa é um carinho e simpatia grandiosos; agora, na hora da tua dificuldade, você é ignorado. Mas deixe estar.
  • A ignorância: fui convidada a me retirar por não me adequar ao perfil do local (aham, depois de dois anos) e por ser "muito acadêmica", fazer muitos cursos e tal. Claro, como se isso fosse prejudicial para eles. Acho que essa ignorância empresarial prejudicou a mim, somente. Daí,
  • A falta de perspectiva: de que adianta ter boa formação, fazer mestrado, ter feito bons cursos, ter contatos, manjar outros idiomas, ter experiência e não conseguir nada? Fazer doutorado e continuar vivendo como estudante com mais de 30? Fazer um concurso para mamar nas tetas da grande-mãe que o Estado brasileiro?
  • Reconhecer a mim mesma: existe a falta de perspectiva, mas aprendi a reconhecer alguns dos meus talentos e qualidades. Logo, não aceito qualquer porcaria. Em qualquer âmbito.
  • Reconhecer os meus demônios: ao assistir ao documentário "A ilha de Bergman", me deparei com muitas coisas com as quais convivo que fizeram parte da persona difícil, porém genial, de Ingmar Bergman. Ao final do filme, ele diz à entrevistadora que ele teve de aprender a lidar com os seus demônios no decorrer de sua vida. Dentre eles, o demônio do rancor e o demônio da raiva. Rancor e raiva são dois demônios que estiveram presentes em mim desde sempre devido ao que vivi. Acho que é possível reconhecê-los nos dois primeiros tópicos. Há momentos em que me importo muito com isso, tem horas que estou me lixando. Entretanto, eu tenho a sensação de que a raiva e o rancor me movem de alguma forma, me tiram da inércia que procura me estacionar. Confesso que fico contente quando alguém que me prejudica se ferra, não sou hipócrita. Muitas vezes, essa falta de hipocrisia me afeta em alguns aspectos da vida em sociedade, me tornando uma espécie de Bergman em versão feminina. Seriam essas características de gênios? Hahaha... é muita pretensão! 
E sim, estou muito "bergmaniana" neste mês de dezembro.

Há um bom tempo venho refletindo a respeito do que quero não só para o ano que está chegando como para um futuro próximo. As escolhas que terei de fazer em 2013 serão de grande importância, contudo, expectativas demais geram frustrações. Portanto, tudo a seu tempo. E o que eu vi, aprendi e não esqueci de 2012 está sendo um gerador de reflexões que levarei comigo por muito tempo. Para este momento, essas quatro coisas soam um tanto pessimistas – e são mesmo. Mas só de ter parado para pensar (o que muita gente não faz) e, agora, estar tentando extrair algo disso me faz amadurecer e ver a vida de um jeito um pouco mais diferente, talvez. Que venha 2013? Ah, eu não tenho essa animação nesta época do ano. O que tiver de ser, será.

#ficaadica: "Liv & Ingmar - uma história de amor"


Já estava ficando envergonhada de não ter postado mais nada desde a última vez. Coisas aconteceram e o tempo (ou melhor, a falta dele) não permitiu que eu fustigasse alguma coisa.

A boa surpresa neste final de ano nos cinemas é o documentário "Liv & Ingmar - uma história de amor". Não sei o nome do diretor – um indiano –, mas só sei que ele foi bem feliz na escolha do tema e das personagens, dois mitos do cinema europeu: o diretor sueco Ingmar Bergman e a atriz norueguesa Liv Ullmann. Resumidamente, o documentário conta a história de amor-amizade-ódio da dupla, que se conhece em meados dos anos 1960 nas filmagens de Persona (um clássico).
A sacada do diretor foi permear o filme com um longo depoimento (ou melhor, narrativa) de Liv (que, aliás, continua lindíssima com os seus 70 e tantos anos). Muito emocionante tanto para quem é fã da dupla como para quem ainda não a conhece ou a conhece pouco, como era o meu caso. Diva é diva em qualquer idade, em qualquer época.
A narrativa sob o ponto de vista de Liv traz à tona as dificuldades de relacionamento de Bergman, tanto que ele foi casado diversas vezes, teve nove filhos e todos "abandonados"; o seu ciúme, a possessividade e o isolamento, mas também a paixão, a amizade e o respeito que ele tinha por Liv. A emoção do depoimento dela é contagiante. A dificuldade dela de conviver com a personalidade dificílima de Ingmar me fez perceber que esse tipo de "persona bergmaniana" é bastante inerente àquele que tem a arte como mote e, através dela, demonstra toda sua genialidade. Mesmo pertencendo à vivência artística, é perceptível a vontade de integração de Liv ao mundo de Ingmar, porém, ela não a consegue. Contudo, a amizade dos dois perpassou qualquer conflito amoroso e se manteve por décadas, dando-nos uma lição de que o amor não acaba quando um relacionamento termina - dependendo, claro, do quão grande é esse amor.
Portanto, fica a dica!





segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O meio faz o homem

Semana passada assisti ao ótimo "Gonzaga, de pai para filho", com a direção do Breno Silveira. Já é o segundo filme desse cara que me faz sair da sala de cinema com um nó na garganta... o primeiro foi "Além do caminho", que conta a história de um motorista de caminhão que roda o Brasil "fugindo" de seus problemas e compromissos e a trajetória dele é contada por músicas do Roberto Carlos. Freud explica.

Mas voltando ao Gonzagão, embora toda a trajetória do cara seja emocionante, cheia de percalços, vitórias e derrotas, o que mais me chamou a atenção da história foram duas coisas: o conflito no relacionamento entre o pai e filho (óbvio) e, menos perceptível, o lance determinista de que "o meio faz o homem".

No filme são mostradas aquelas paisagens sofridas do sertão nordestino, especificamente no interior de Pernambuco. Coincidentemente, minha bisavó nasceu na mesma cidade do Luiz Gonzaga e é meio que contemporânea dele, só com uns 7 anos a mais que ele. Meu avô nasceu na região do Crato, no Ceará, uma cidade importante para aquela região entre os dois Estados. Meu pai também nasceu no sertão pernambucano, só que numa cidade distante da de minha bisavó e Gonzagão, num lugar igualmente brutalmente seco. Por que estou dizendo tudo isso? É aí que quero chegar na hipótese errônea do determinismo de que "o meio faz o homem".

Todas as pessoas que mencionei vieram de ambientes secos, praticamente inóspitos. No filme, embora vivessem num meio de difícil sobrevivência, havia muito carinho entre os pais para com o protagonista e vice-versa– claro que há aquela braveza tradicional deles, afinal, os coronéis ainda dominavam boa parte do Nordeste brasileiro. Já o protagonista, ao sair de sua terra e conquistar fama, sucesso e dinheiro no Sudeste, sequer conhecia seu filho, pois era ausente afetivamente, porém, dinheiro nunca faltou ao garoto.
As pessoas mais velhas de minha convivência já se foram, mas tenho a lembrança muito presente delas de serem pessoas amáveis, cordiais e compreensivas, apesar das muitas dificuldades pelas quais passaram em suas vidas, como o analfabetismo, a fome crônica e o abandono da terra para ganhar o mínimo em São Paulo.
O filme me fez lembrar demais da relação que tenho (ou não) com meu genitor. O meu sonho é, um dia, fazer uma gravação igual àquela que o filho faz com o pai em idade avançada: quem viu o filme sabe da cena que estou mencionando. Uma gravação sem terceiros, num confronto direto entre duas pessoas que mal se conhecem mas que têm sérios conflitos a serem resolvidos. Conflitos que existem desde a infância, os quais deixaram marcas profundas em minha personalidade e no modo como encaro a vida. Se esta hora chegar ou não, não sei; mas sei que farei o possível para que ela chegue. Como o Gonzagão do filme, eu sempre ouvi que o nordestino é bruto e ignorante devido ao lugar de onde ele veio. Eu não concordo. Veja o que escrevi acima a respeito dos pais do protagonista e de minha bisavó e meu avô. Para que a criação de um filho seja exitosa, é preciso somente que ele tenha educação formal ("virar doutor" ou, hoje em dia, "ter faculdade") e não passe fome como ele passou. O resto é besteira. Afinal, para que ter e receber afeto, não é verdade? Para que conhecer aquele que é fruto de um relacionamento, não é mesmo?

O meio não faz o homem. É o homem que faz o meio. São as atitudes do homem que fazem com que o meio seja bom ou ruim. O meio é só um local. Ter sofrido no meio seco não torna ninguém seco. A secura humana é simplesmente uma questão de caráter e personalidade. O problema é que essa secura prejudica tanto o meio que faz com que as relações se tornem como aqueles solos da caatinga: duras, rachadas e, ao mesmo tempo, fragilizadas.