Semana passada assisti ao ótimo "Gonzaga, de pai para filho", com a direção do Breno Silveira. Já é o segundo filme desse cara que me faz sair da sala de cinema com um nó na garganta... o primeiro foi "Além do caminho", que conta a história de um motorista de caminhão que roda o Brasil "fugindo" de seus problemas e compromissos e a trajetória dele é contada por músicas do Roberto Carlos. Freud explica.
Mas voltando ao Gonzagão, embora toda a trajetória do cara seja emocionante, cheia de percalços, vitórias e derrotas, o que mais me chamou a atenção da história foram duas coisas: o conflito no relacionamento entre o pai e filho (óbvio) e, menos perceptível, o lance determinista de que "o meio faz o homem".
No filme são mostradas aquelas paisagens sofridas do sertão nordestino, especificamente no interior de Pernambuco. Coincidentemente, minha bisavó nasceu na mesma cidade do Luiz Gonzaga e é meio que contemporânea dele, só com uns 7 anos a mais que ele. Meu avô nasceu na região do Crato, no Ceará, uma cidade importante para aquela região entre os dois Estados. Meu pai também nasceu no sertão pernambucano, só que numa cidade distante da de minha bisavó e Gonzagão, num lugar igualmente brutalmente seco. Por que estou dizendo tudo isso? É aí que quero chegar na hipótese errônea do determinismo de que "o meio faz o homem".
Todas as pessoas que mencionei vieram de ambientes secos, praticamente inóspitos. No filme, embora vivessem num meio de difícil sobrevivência, havia muito carinho entre os pais para com o protagonista e vice-versa– claro que há aquela braveza tradicional deles, afinal, os coronéis ainda dominavam boa parte do Nordeste brasileiro. Já o protagonista, ao sair de sua terra e conquistar fama, sucesso e dinheiro no Sudeste, sequer conhecia seu filho, pois era ausente afetivamente, porém, dinheiro nunca faltou ao garoto.
As pessoas mais velhas de minha convivência já se foram, mas tenho a lembrança muito presente delas de serem pessoas amáveis, cordiais e compreensivas, apesar das muitas dificuldades pelas quais passaram em suas vidas, como o analfabetismo, a fome crônica e o abandono da terra para ganhar o mínimo em São Paulo.
O filme me fez lembrar demais da relação que tenho (ou não) com meu genitor. O meu sonho é, um dia, fazer uma gravação igual àquela que o filho faz com o pai em idade avançada: quem viu o filme sabe da cena que estou mencionando. Uma gravação sem terceiros, num confronto direto entre duas pessoas que mal se conhecem mas que têm sérios conflitos a serem resolvidos. Conflitos que existem desde a infância, os quais deixaram marcas profundas em minha personalidade e no modo como encaro a vida. Se esta hora chegar ou não, não sei; mas sei que farei o possível para que ela chegue. Como o Gonzagão do filme, eu sempre ouvi que o nordestino é bruto e ignorante devido ao lugar de onde ele veio. Eu não concordo. Veja o que escrevi acima a respeito dos pais do protagonista e de minha bisavó e meu avô. Para que a criação de um filho seja exitosa, é preciso somente que ele tenha educação formal ("virar doutor" ou, hoje em dia, "ter faculdade") e não passe fome como ele passou. O resto é besteira. Afinal, para que ter e receber afeto, não é verdade? Para que conhecer aquele que é fruto de um relacionamento, não é mesmo?
O meio não faz o homem. É o homem que faz o meio. São as atitudes do homem que fazem com que o meio seja bom ou ruim. O meio é só um local. Ter sofrido no meio seco não torna ninguém seco. A secura humana é simplesmente uma questão de caráter e personalidade. O problema é que essa secura prejudica tanto o meio que faz com que as relações se tornem como aqueles solos da caatinga: duras, rachadas e, ao mesmo tempo, fragilizadas.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Fluxo de consciência
Por que existe a necessidade de se apegar a algo transcendental? Por que as pessoas camufladamente cobram que você acredite em algo?
Será que a veemência em não acreditar em nada não seria, talvez, uma forma de crença?
Quem não acredita, sente mais a dor.
Gostaria muito de acreditar/apegar a algo. Já fiz tentativas, todas sem sucesso. Até terapeutas me disseram para procurar algo transcendental que eu curta. Confesso que fiquei com preguiça para tal.
De nada adiantou o modo de criação ao qual fui impelida: acho tudo muito alienante.
Quando a dor aperta, tenho intenção em buscar alguma coisa, mas logo me esqueço.
Mesmo na "materialidade", quero fazer algo que curto – um curso de culinária, sei lá – mas, ao mesmo tempo, me pergunto "pra quê?". Tenho obrigações a cumprir, como minha pesquisa de mestrado, porém também me faço a mesma pergunta: "pra quê?". Às vezes, fico dias e dias sem tocar em meus objetos de pesquisa nem abrir meu arquivo no computador com a redação do meu trabalho.
Sempre me pergunto: de que adianta ter ótima formação, falar três línguas, ser comprometida e competente no que faço se há um sensação de estagnação, do tipo de estar perdida num labirinto sem saída? E daí volto a pensar no lance da transcendência e fazer todas as indagações acima mencionadas.
*Como deu para perceber, o texto está totalmente fragmentado. Acho que escrever no esquema "fluxo de consciência" rende melhor ultimamente. Vide a longa ausência que tive daqui. Mas a ideia sempre foi a do desabafo, da indagação e da fustigada. Portanto, dane-se.
Será que a veemência em não acreditar em nada não seria, talvez, uma forma de crença?
Quem não acredita, sente mais a dor.
Gostaria muito de acreditar/apegar a algo. Já fiz tentativas, todas sem sucesso. Até terapeutas me disseram para procurar algo transcendental que eu curta. Confesso que fiquei com preguiça para tal.
De nada adiantou o modo de criação ao qual fui impelida: acho tudo muito alienante.
Quando a dor aperta, tenho intenção em buscar alguma coisa, mas logo me esqueço.
Mesmo na "materialidade", quero fazer algo que curto – um curso de culinária, sei lá – mas, ao mesmo tempo, me pergunto "pra quê?". Tenho obrigações a cumprir, como minha pesquisa de mestrado, porém também me faço a mesma pergunta: "pra quê?". Às vezes, fico dias e dias sem tocar em meus objetos de pesquisa nem abrir meu arquivo no computador com a redação do meu trabalho.
Sempre me pergunto: de que adianta ter ótima formação, falar três línguas, ser comprometida e competente no que faço se há um sensação de estagnação, do tipo de estar perdida num labirinto sem saída? E daí volto a pensar no lance da transcendência e fazer todas as indagações acima mencionadas.
*Como deu para perceber, o texto está totalmente fragmentado. Acho que escrever no esquema "fluxo de consciência" rende melhor ultimamente. Vide a longa ausência que tive daqui. Mas a ideia sempre foi a do desabafo, da indagação e da fustigada. Portanto, dane-se.
domingo, 9 de setembro de 2012
Everything Must Go
Tenho uma relação de amor e ódio com as redes sociais. Mais amor do que ódio. Mas, quando odeio, saem coisas como a última postagem que fiz na minha página de Facebook:
"Fico extremamente emputecida quando fazem lamúrias nas redes sociais, principalmente aqui no FB, do tipo: "ai, esse doutorado", "preciso escrever minha tese", "esse mestrado que não me deixa dormir", "meu relatório", "ai, meu TCC" e coisas do gênero. Ora, foi uma escolha tua, portanto, que arque com as consequências trazidas por ela. Quanto a dormir ou não, quanto a terminar tal coisa ou não, isso é mais coisa de ajuste de rotina e horários do que dificuldade do trabalho escolhido em si. Tudo é uma questão de planejamento. Engraçado, o tempo para escrever, ler ou analisar dados é sempre escasso, agora, para fazer da internet de Muro das Lamentações, o tempo é bem abundante. #tomanocu" (09/09/2012)
Desabafos profissionais como:
"Toda vez que entram em contato comigo para "pedir um orçamento" ou perguntar sobre a "pretensão salarial", sinto-me em um daqueles leilões que passam no Canal Rural, sabe?! O pior é que, quando vc diz, o babaca já tem o valor fechado. Não seria mais fácil dizer "o valor é X, ok?", e pronto? Não, não é. E dane-se o mundo. #VSF" (28/08/2012)
E, também, fico de saco cheio das notícias da grande mídia e do universo pop. Mas, desta vez, houve um quê de lirismo na lembrança de datas de pessoas muito queridas (porque não sou somente paulada, não é mesmo, produção?):
"Hoje as páginas de todo o mundo estão sendo inundadas com "aniversário da Madonna", "dia da morte do Elvis" e blá-blá-blá. Para mim, o que importa é que hoje seria o 85º aniversário do meu querido e saudoso vô Pedro. E ontem foi o aniversário de 80 anos da minha avó. Ou seja, o casal combina até nas datas de nascimento!
É a saudade que fica. O resto é balela." (16/08/2012)
E deixo isso aqui, lá do País de Gales:
http://www.youtube.com/watch?v=uU5trjpFus0
"Fico extremamente emputecida quando fazem lamúrias nas redes sociais, principalmente aqui no FB, do tipo: "ai, esse doutorado", "preciso escrever minha tese", "esse mestrado que não me deixa dormir", "meu relatório", "ai, meu TCC" e coisas do gênero. Ora, foi uma escolha tua, portanto, que arque com as consequências trazidas por ela. Quanto a dormir ou não, quanto a terminar tal coisa ou não, isso é mais coisa de ajuste de rotina e horários do que dificuldade do trabalho escolhido em si. Tudo é uma questão de planejamento. Engraçado, o tempo para escrever, ler ou analisar dados é sempre escasso, agora, para fazer da internet de Muro das Lamentações, o tempo é bem abundante. #tomanocu" (09/09/2012)
Desabafos profissionais como:
"Toda vez que entram em contato comigo para "pedir um orçamento" ou perguntar sobre a "pretensão salarial", sinto-me em um daqueles leilões que passam no Canal Rural, sabe?! O pior é que, quando vc diz, o babaca já tem o valor fechado. Não seria mais fácil dizer "o valor é X, ok?", e pronto? Não, não é. E dane-se o mundo. #VSF" (28/08/2012)
E, também, fico de saco cheio das notícias da grande mídia e do universo pop. Mas, desta vez, houve um quê de lirismo na lembrança de datas de pessoas muito queridas (porque não sou somente paulada, não é mesmo, produção?):
"Hoje as páginas de todo o mundo estão sendo inundadas com "aniversário da Madonna", "dia da morte do Elvis" e blá-blá-blá. Para mim, o que importa é que hoje seria o 85º aniversário do meu querido e saudoso vô Pedro. E ontem foi o aniversário de 80 anos da minha avó. Ou seja, o casal combina até nas datas de nascimento!
É a saudade que fica. O resto é balela." (16/08/2012)
E deixo isso aqui, lá do País de Gales:
http://www.youtube.com/watch?v=uU5trjpFus0
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Você emite nota?
Nos últimos dias, eu venho me sentindo muito ofendida.
Estou em busca de recolocação profissional, que seja, no mínimo, decente. Nada demais. Não quero multinacionais da área editorial, nem cargos bárbaros e nem quero algo totalmente fantástico que sugue a vida pessoal. Nada disso. Eu quero somente algo digno – e, diante das "propostas" que vêm aparecendo nas últimas semanas, praticamente nada é minimamente decente.
Fico horrorizada com tamanha terceirização do setor. Tudo tem de emitir nota, tem de ser PJ, pois, de outra forma, não rola. Fico ainda mais horrorizada quando empresas entram em contato comigo me oferecendo uma vaga aparentemente bacana, porém eu teria de emitir nota fiscal e, além disso, teria de trabalhar num regime de "freela fixo". "Freela fixo"? Que p@#$% é essa? É uma pergunta retórica, claro que sei sobre o famigerado "freela fixo"!
Um freela fixo seria nada mais do que um profissional exercendo sua função num local, cumprindo horários e exigências como qualquer outro funcionário de regime CLT. Porém, ele não recebe qualquer tipo de benefício, seja lá um vale-transporte para pegar o busão. Legal, né?! Como diria um amigo meu que é advogado, "isso dá um processo trabalhista espetacular". Contudo, diante da disseminação dessa relação "trabalhista" e com tanta gente inclusive preferindo essa modalidade de trabalho, como faz? Difícil acontecer alguma coisa. Ninguém quer mexer com peixe grande, dependendo da grandeza do peixe.
Só nesta semana duas empresas me ligaram oferecendo esse tipo de prestação de serviço. Confesso que fiquei interessada por uma das propostas. Mas, só de pensar que eu teria de correr atrás desses esquemas de CNPJ, nota fiscal e das burocracias advindas disso me dá preguiça e medo. Medo de não conseguir lidar com esse tipo de coisa e me prejudicar. Diante das coisas que estão acontecendo comigo, eu não poderia ficar recusando muita coisa, não. Por sorte eu consegui uma bolsa de mestrado da Capes – o que não é lá aquela coisa –, logo, quero algo para complementar a renda. Claro que faço muitos freelas, mas freela, para mim, significa prestar o serviço da sua casa, da padaria da esquina, do café do rua. Não essa palhaçada de ser um funcionário de mentirinha.
Além das piadas propostas, as empresas com regime CLT também têm seus "babados". Nesta mesma semana, fiquei sabendo, graças a colegas de grupos de e-mail sobre a profissão e o mercado editorial, que a empresa para a qual eu faria um teste/entrevista explora seus funcionários da maneira mais descarada: horas extras quase todos os dias e sem remuneração, banco de horas que nunca pode ser utilizado (ora, se todo dia tem hora extra, como a pessoa pode usar o banco de horas, não é mesmo?), baixo salário e sem perspectiva de crescimento. Desisti na hora. Diante da opinião unânime de três pessoas que lá trabalharam, não quis entrar numa enrascada.
Há umas duas semanas fui chamada para trabalhar numa editora. Parecia ser um lugar agradável e com pessoas cordiais. Até aí, tudo bem. O problema é que trabalhar em empresa familiar e de pequeno porte não há muita perspectiva de crescimento. Além disso, não tenho nenhuma familiaridade com a temática das obras de lá; nada contra quem gosta, até estava disposta a aprender coisas do gênero para me familiarizar. No dia em que eu iria começar na editora, eu fui assinar o termo de concessão da bolsa Capes. Achei que foi a melhor decisão por hora.
Mesmo tendo a bolsa, eu não desisti da busca pela minha realização profissional. Não tenho problema nenhum em abrir mão da bolsa, caso encontrar algo bacana. Afinal, como disse, coisas pelas quais estava esperando logo acontecerão (e tenho fé disso). Não acho justo estudar e não poder trabalhar com registro em carteira. Os órgãos de fomento ainda não entendem a realidade dos estudantes de pós-graduação do país. Há alunos que já são casados, com filhos e com contas a pagar. Somente a bolsa não é viável, ainda mais numa cidade caríssima como São Paulo. O que acho justo é procurar e encontrar um lugar que tenha uma proposta, no mínimo, decente. Eu estudo (e muito) para alcançar esse objetivo. Só que está complicado. Tem horas em que "a mina pira".
Acredito que todo mundo tem o direito de trabalhar decentemente, num lugar decente e com os todos os direitos previstos em lei. Será que terei de ficar lutando contra a maré da terceirização até encontrar algo com renda fixa? Será que estou pedindo demais? Será que terei de ficar ouvindo exaustivamente "Você emite nota?".
Estou em busca de recolocação profissional, que seja, no mínimo, decente. Nada demais. Não quero multinacionais da área editorial, nem cargos bárbaros e nem quero algo totalmente fantástico que sugue a vida pessoal. Nada disso. Eu quero somente algo digno – e, diante das "propostas" que vêm aparecendo nas últimas semanas, praticamente nada é minimamente decente.
Fico horrorizada com tamanha terceirização do setor. Tudo tem de emitir nota, tem de ser PJ, pois, de outra forma, não rola. Fico ainda mais horrorizada quando empresas entram em contato comigo me oferecendo uma vaga aparentemente bacana, porém eu teria de emitir nota fiscal e, além disso, teria de trabalhar num regime de "freela fixo". "Freela fixo"? Que p@#$% é essa? É uma pergunta retórica, claro que sei sobre o famigerado "freela fixo"!
Um freela fixo seria nada mais do que um profissional exercendo sua função num local, cumprindo horários e exigências como qualquer outro funcionário de regime CLT. Porém, ele não recebe qualquer tipo de benefício, seja lá um vale-transporte para pegar o busão. Legal, né?! Como diria um amigo meu que é advogado, "isso dá um processo trabalhista espetacular". Contudo, diante da disseminação dessa relação "trabalhista" e com tanta gente inclusive preferindo essa modalidade de trabalho, como faz? Difícil acontecer alguma coisa. Ninguém quer mexer com peixe grande, dependendo da grandeza do peixe.
Só nesta semana duas empresas me ligaram oferecendo esse tipo de prestação de serviço. Confesso que fiquei interessada por uma das propostas. Mas, só de pensar que eu teria de correr atrás desses esquemas de CNPJ, nota fiscal e das burocracias advindas disso me dá preguiça e medo. Medo de não conseguir lidar com esse tipo de coisa e me prejudicar. Diante das coisas que estão acontecendo comigo, eu não poderia ficar recusando muita coisa, não. Por sorte eu consegui uma bolsa de mestrado da Capes – o que não é lá aquela coisa –, logo, quero algo para complementar a renda. Claro que faço muitos freelas, mas freela, para mim, significa prestar o serviço da sua casa, da padaria da esquina, do café do rua. Não essa palhaçada de ser um funcionário de mentirinha.
Além das piadas propostas, as empresas com regime CLT também têm seus "babados". Nesta mesma semana, fiquei sabendo, graças a colegas de grupos de e-mail sobre a profissão e o mercado editorial, que a empresa para a qual eu faria um teste/entrevista explora seus funcionários da maneira mais descarada: horas extras quase todos os dias e sem remuneração, banco de horas que nunca pode ser utilizado (ora, se todo dia tem hora extra, como a pessoa pode usar o banco de horas, não é mesmo?), baixo salário e sem perspectiva de crescimento. Desisti na hora. Diante da opinião unânime de três pessoas que lá trabalharam, não quis entrar numa enrascada.
Há umas duas semanas fui chamada para trabalhar numa editora. Parecia ser um lugar agradável e com pessoas cordiais. Até aí, tudo bem. O problema é que trabalhar em empresa familiar e de pequeno porte não há muita perspectiva de crescimento. Além disso, não tenho nenhuma familiaridade com a temática das obras de lá; nada contra quem gosta, até estava disposta a aprender coisas do gênero para me familiarizar. No dia em que eu iria começar na editora, eu fui assinar o termo de concessão da bolsa Capes. Achei que foi a melhor decisão por hora.
Mesmo tendo a bolsa, eu não desisti da busca pela minha realização profissional. Não tenho problema nenhum em abrir mão da bolsa, caso encontrar algo bacana. Afinal, como disse, coisas pelas quais estava esperando logo acontecerão (e tenho fé disso). Não acho justo estudar e não poder trabalhar com registro em carteira. Os órgãos de fomento ainda não entendem a realidade dos estudantes de pós-graduação do país. Há alunos que já são casados, com filhos e com contas a pagar. Somente a bolsa não é viável, ainda mais numa cidade caríssima como São Paulo. O que acho justo é procurar e encontrar um lugar que tenha uma proposta, no mínimo, decente. Eu estudo (e muito) para alcançar esse objetivo. Só que está complicado. Tem horas em que "a mina pira".
Acredito que todo mundo tem o direito de trabalhar decentemente, num lugar decente e com os todos os direitos previstos em lei. Será que terei de ficar lutando contra a maré da terceirização até encontrar algo com renda fixa? Será que estou pedindo demais? Será que terei de ficar ouvindo exaustivamente "Você emite nota?".
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Ironia da vida?
Ontem, ao folhear uma dissertação na qual eu precisei consultar a bibliografia, li algo do tipo nos agradecimentos:
Agradeço à minha família, amigos, etc. e tal, ao orientador e membros da banca de qualificação, blá-blá-blá. E agradeço muito ao Fulano de Tal, diretor de pós-vendas da Citroën Brasil, que reduziu minha jornada de trabalho durante o período de pesquisa. Sem isso, ela não teria sido viável.
Há uns três meses, me disseram:
"Então, chegamos à conclusão de que o teu perfil não condiz com o que precisamos. Você é muito acadêmica, faz teus cursos etc. Em relação a teu trabalho, nada a queixar, pelo contrário. Mas, infelizmente, precisamos de alguém que esteja à nossa disposição. Por favor, pode passar no RH e acertar tuas coisas."
A pergunta é: Afinal, quem é que tem "visão de mercado"???
Engraçada a vida, não?! Nem sempre.
Agradeço à minha família, amigos, etc. e tal, ao orientador e membros da banca de qualificação, blá-blá-blá. E agradeço muito ao Fulano de Tal, diretor de pós-vendas da Citroën Brasil, que reduziu minha jornada de trabalho durante o período de pesquisa. Sem isso, ela não teria sido viável.
Há uns três meses, me disseram:
"Então, chegamos à conclusão de que o teu perfil não condiz com o que precisamos. Você é muito acadêmica, faz teus cursos etc. Em relação a teu trabalho, nada a queixar, pelo contrário. Mas, infelizmente, precisamos de alguém que esteja à nossa disposição. Por favor, pode passar no RH e acertar tuas coisas."
A pergunta é: Afinal, quem é que tem "visão de mercado"???
Engraçada a vida, não?! Nem sempre.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Multiculturalismo
Adoro torneios que envolvem muitos países. Vale Copa do Mundo, Olimpíada, Pan-Americano. A minha febre do momento é a Eurocopa, que está rolando lá na Polônia e na Ucrânia. Me pergunto o porquê de ser em países tão distintos e distantes. Sei lá, poderia ser na Polônia/República Tcheca ou Ucrânia/Bulgária ou na Polônia somente. Penso mais pela questão da proximidade mesmo. Vai entender essa escolha da organização do Michel Platini. Enfim, isso não vem ao caso.
O que vem ao caso, na verdade, é a sensação que os jogos entre os países europeus provoca. Me admiro demais com a forma na qual as partidas são organizadas, com a técnica dos times (e disso não entendo muita coisa), entre outras coisas. Mas o que me admira realmente é a paixão com que jogadores e torcidas encaram esse torneio. Porém, é uma paixão que não é burra. Uma paixão respeitosa. Se o time ganha, claro, a torcida vibra. Se ele perde, a torcida o aplaude, sai do estádio de cabeça baixa, vai pra sua casa e, no dia seguinte, sua vida segue o rumo normal. Já sabemos muito bem o que acontece por aqui, mesmo com um time ganhando ou perdendo. Sem comentários.
Percebo essa paixão na forma como a torcida se comporta no estádio e na forma como empurra o time de seu país. Já pelo time percebo um respeito ao país pelo qual está representando. Na execução dos hinos nacionais, ou vejo alguém cantando com fervor ou numa postura muito séria para com o momento. Ou até mesmo o time todo abraçado, como se vê na seleção alemã. Acho isso muito bonito, de verdade. Vemos isso com os jogadores brasileiros? Bom, a começar que muitos mal sabem a letra do nosso hino nacional...
Além dessa postura dos times europeus, algo muito interessante vem me chamando a atenção nesse campeonato: a diversidade étnica dos jogadores. Até alguns anos atrás, era impensável ver jogadores de origem africana, árabe, até mesmo brasileira em seleções europeias. Em times locais isso sempre foi presente, porém, nas seleções? Isso é claramente o retrato de um continente multicultural, onde é possível, sim, construir uma vida fora de sua terra natal.
Para exemplificar, nos times de Portugal e Croácia (hein?!) há brasileiros naturalizados; o time francês é composto boa parte por descendentes de argelinos, marroquinos e tunisianos; no inglês, também; no tcheco (fiquei surpresa) há africanos; um dos titulares da Itália também é africano (aí fiquei BEM surpresa); quem são alguns dos titulares da Alemanha? Diz algo nomes como Özil, Khedira, Boateng, Klose e Podolski? São alguns que eu me lembro no momento. Me chamou muita atenção no jogo de hoje entre Alemanha e Grécia a postura dos jogadores da seleção alemã que são de origem estrangeira: eles se abraçam junto aos outros companheiros, porém não cantam o hino nacional. Acredito que seja uma forma respeitosa para com a própria origem. Inclusive há dois irmãos (os Altintop) jogadores na Alemanha que não cantam os hinos de Alemanha e Turquia quando estes se enfrentam, pois eles possuem dupla nacionalidade e podem ser convocados por ambas as seleções.
Além dessa reflexão vinda por meio de jogos de futebol, a matéria de pós-graduação que fiz neste semestre tratava justamente de questões de interculturalidade. A interculturalidade é um estudo um tanto recente de culturas em "choque" num mesmo país ou na comparação entre duas culturas distintas. Tal estudo vem da antropologia, mas agora está ganhando contornos na psicologia social e na linguística, por exemplo. Como eu "nem" me interesso pelo tema, a Euro 2012 está sendo um prato cheio para análises e estudos.
Continuarei acompanhando os jogos com entusiasmo, torcendo para que a Alemanha (que não é mais um time de robôs, que bom) chegue à final!
O que vem ao caso, na verdade, é a sensação que os jogos entre os países europeus provoca. Me admiro demais com a forma na qual as partidas são organizadas, com a técnica dos times (e disso não entendo muita coisa), entre outras coisas. Mas o que me admira realmente é a paixão com que jogadores e torcidas encaram esse torneio. Porém, é uma paixão que não é burra. Uma paixão respeitosa. Se o time ganha, claro, a torcida vibra. Se ele perde, a torcida o aplaude, sai do estádio de cabeça baixa, vai pra sua casa e, no dia seguinte, sua vida segue o rumo normal. Já sabemos muito bem o que acontece por aqui, mesmo com um time ganhando ou perdendo. Sem comentários.
Percebo essa paixão na forma como a torcida se comporta no estádio e na forma como empurra o time de seu país. Já pelo time percebo um respeito ao país pelo qual está representando. Na execução dos hinos nacionais, ou vejo alguém cantando com fervor ou numa postura muito séria para com o momento. Ou até mesmo o time todo abraçado, como se vê na seleção alemã. Acho isso muito bonito, de verdade. Vemos isso com os jogadores brasileiros? Bom, a começar que muitos mal sabem a letra do nosso hino nacional...
Além dessa postura dos times europeus, algo muito interessante vem me chamando a atenção nesse campeonato: a diversidade étnica dos jogadores. Até alguns anos atrás, era impensável ver jogadores de origem africana, árabe, até mesmo brasileira em seleções europeias. Em times locais isso sempre foi presente, porém, nas seleções? Isso é claramente o retrato de um continente multicultural, onde é possível, sim, construir uma vida fora de sua terra natal.
Para exemplificar, nos times de Portugal e Croácia (hein?!) há brasileiros naturalizados; o time francês é composto boa parte por descendentes de argelinos, marroquinos e tunisianos; no inglês, também; no tcheco (fiquei surpresa) há africanos; um dos titulares da Itália também é africano (aí fiquei BEM surpresa); quem são alguns dos titulares da Alemanha? Diz algo nomes como Özil, Khedira, Boateng, Klose e Podolski? São alguns que eu me lembro no momento. Me chamou muita atenção no jogo de hoje entre Alemanha e Grécia a postura dos jogadores da seleção alemã que são de origem estrangeira: eles se abraçam junto aos outros companheiros, porém não cantam o hino nacional. Acredito que seja uma forma respeitosa para com a própria origem. Inclusive há dois irmãos (os Altintop) jogadores na Alemanha que não cantam os hinos de Alemanha e Turquia quando estes se enfrentam, pois eles possuem dupla nacionalidade e podem ser convocados por ambas as seleções.
Além dessa reflexão vinda por meio de jogos de futebol, a matéria de pós-graduação que fiz neste semestre tratava justamente de questões de interculturalidade. A interculturalidade é um estudo um tanto recente de culturas em "choque" num mesmo país ou na comparação entre duas culturas distintas. Tal estudo vem da antropologia, mas agora está ganhando contornos na psicologia social e na linguística, por exemplo. Como eu "nem" me interesso pelo tema, a Euro 2012 está sendo um prato cheio para análises e estudos.
Continuarei acompanhando os jogos com entusiasmo, torcendo para que a Alemanha (que não é mais um time de robôs, que bom) chegue à final!
Quando Nietzsche encontrou Mãe Dinah - parte 2
Devo dizer que ando bastante maleável. Até demais, creio eu.
Quem diria, eu, uma espécie de Nietzsche versão feminina e mais light, ter passado por uma experiência, por assim dizer, xamânica?! Pois é. Digo "por assim dizer" porque xamanismo "true" acontece no meio do mato. Eu não fui para o meio do mato, mas aqui mesmo, em São Paulo.
Fui vencida pelo cansaço da insistência e pela sensação de desorientação. Quem me conhece sabe que não sou lá adepta a qualquer coisa muito abstrata, que dirá de coisas a serem ingeridas. Porém, ultimamente, talvez devido ao momento, tenho me surpreendido bastante. Eu tomei algo que é chamado de "vegetal", "daime", "ayahuasca". O que posso dizer é: se é um negócio que traz paz e reflexão, que não te prejudica fisicamente, por que não? Se não afeta negativamente ninguém, não vejo mal algum; a não ser quando isso (ou a sensação que qualquer rito traz) faz o sujeito de escravo.
Se isso realmente funcionou ou funciona, eu não tenho a menor ideia. Só posso dizer que não tive aquela sensação de paz, tranquilidade e reflexão tão propagada por quem faz uso dessa bebida. Pelo contrário. Se aquilo fez efeito no meu organismo, trouxe um turbilhão de pensamentos que me assolam neste momento, o que me deixou muito perturbada. Não se vê nada, mas é como se fosse um sonho: você tem a sensação de estar participando de alguma coisa. No meu caso, fiquei muito revoltada e angustiada em "ver" diversos rostos de pessoas com as quais eu trabalhei no último lugar, tanto de quem eu gostava como de quem eu não gostava. Por quê? Mas por que justamente essas pessoas? Fiquei me questionando se isso ainda me afeta. Provavelmente, sim. Em seguida, fui tomada por um turbilhão de pensamentos em relação à tomada de decisões acerca de trabalho e estudo. Parecia uma coisa martelando na minha cabeça: "decisão", "decisão", "decisão". Confesso que fiquei meio desapontada, pois tudo o que eu menos queria pensar naquele momento era em coisas incômodas. Além disso, no dia seguinte, fiquei com uma sensação física péssima, a ponto de não conseguir ver a luz do dia, de tanta dor de cabeça e mal-estar.
Se isso me auxiliar (pelo menos um pouco) mais para a frente nessas questões que me atormentam, ótimo. Se não, foi bom conhecê-lo, mas, parei por aqui. Não gosto de me sentir dependente de nada para buscar minha plenitude.
Outro exemplo de maleabilidade foi eu ter ido a alguém que lê a mão. Sei que o lance se chama quiromancia, mas, e a pessoa que lê a mão é o quê? Maga (o) patalógica (o)? Vou pesquisar.
Eu sempre tive muita curiosidade, apesar de não acreditar. Mas o engraçado é que eu achei interessante essa experiência! Claro que não especifico aqui o que foi dito, mas digo que não foi clichê, não. Aquela coisa de discurso vazio que os trambiqueiros adoram usar, sabe?
Idas a taróloga, pessoa que lê mão, a ritual xamânico... e o que mais?
Sei lá, se coisas desse naipe trazem bem-estar e felicidade momentânea verdadeiros às pessoas, não há mal algum. O lance é procurar ver as coisas de uma forma menos estereotipada.
Nossa, agora me surpreendi com esse último parágrafo. Sério.
Quem diria, eu, uma espécie de Nietzsche versão feminina e mais light, ter passado por uma experiência, por assim dizer, xamânica?! Pois é. Digo "por assim dizer" porque xamanismo "true" acontece no meio do mato. Eu não fui para o meio do mato, mas aqui mesmo, em São Paulo.
Fui vencida pelo cansaço da insistência e pela sensação de desorientação. Quem me conhece sabe que não sou lá adepta a qualquer coisa muito abstrata, que dirá de coisas a serem ingeridas. Porém, ultimamente, talvez devido ao momento, tenho me surpreendido bastante. Eu tomei algo que é chamado de "vegetal", "daime", "ayahuasca". O que posso dizer é: se é um negócio que traz paz e reflexão, que não te prejudica fisicamente, por que não? Se não afeta negativamente ninguém, não vejo mal algum; a não ser quando isso (ou a sensação que qualquer rito traz) faz o sujeito de escravo.
Se isso realmente funcionou ou funciona, eu não tenho a menor ideia. Só posso dizer que não tive aquela sensação de paz, tranquilidade e reflexão tão propagada por quem faz uso dessa bebida. Pelo contrário. Se aquilo fez efeito no meu organismo, trouxe um turbilhão de pensamentos que me assolam neste momento, o que me deixou muito perturbada. Não se vê nada, mas é como se fosse um sonho: você tem a sensação de estar participando de alguma coisa. No meu caso, fiquei muito revoltada e angustiada em "ver" diversos rostos de pessoas com as quais eu trabalhei no último lugar, tanto de quem eu gostava como de quem eu não gostava. Por quê? Mas por que justamente essas pessoas? Fiquei me questionando se isso ainda me afeta. Provavelmente, sim. Em seguida, fui tomada por um turbilhão de pensamentos em relação à tomada de decisões acerca de trabalho e estudo. Parecia uma coisa martelando na minha cabeça: "decisão", "decisão", "decisão". Confesso que fiquei meio desapontada, pois tudo o que eu menos queria pensar naquele momento era em coisas incômodas. Além disso, no dia seguinte, fiquei com uma sensação física péssima, a ponto de não conseguir ver a luz do dia, de tanta dor de cabeça e mal-estar.
Se isso me auxiliar (pelo menos um pouco) mais para a frente nessas questões que me atormentam, ótimo. Se não, foi bom conhecê-lo, mas, parei por aqui. Não gosto de me sentir dependente de nada para buscar minha plenitude.
Outro exemplo de maleabilidade foi eu ter ido a alguém que lê a mão. Sei que o lance se chama quiromancia, mas, e a pessoa que lê a mão é o quê? Maga (o) patalógica (o)? Vou pesquisar.
Eu sempre tive muita curiosidade, apesar de não acreditar. Mas o engraçado é que eu achei interessante essa experiência! Claro que não especifico aqui o que foi dito, mas digo que não foi clichê, não. Aquela coisa de discurso vazio que os trambiqueiros adoram usar, sabe?
Idas a taróloga, pessoa que lê mão, a ritual xamânico... e o que mais?
Sei lá, se coisas desse naipe trazem bem-estar e felicidade momentânea verdadeiros às pessoas, não há mal algum. O lance é procurar ver as coisas de uma forma menos estereotipada.
Nossa, agora me surpreendi com esse último parágrafo. Sério.
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