Todos nós nos deparamos com os dilemas ao longo da vida. Maiores ou menores, mas são os eternos dilemas. Os meus dilemas mais críticos do momento são: mudo ou não de profissão? Troco de emprego ou não? Eles são angustiantes, mas...
... existe outro dilema que venho ruminando há algum tempo [OK, ruminar é um verbo um tanto feio, mas é o que veio agora] e voltou forte hoje, mais precisamente no momento pós-almoço: engravido ou faço um doutorado?
Para quem é do meio acadêmico, é sabido que uma tese não deixa de ser uma gestação. De quatro anos, mas é uma gestação. Uma gestação simbólica, metafórica. E a gestação "literal" todos nós sabemos qual é. Para mim, esses são dois dilemas cruciais do momento. No entanto, antes de resolvê-los, preciso resolver um anterior e não menos urgente: a depressão.
Tem gente que lê isso aqui que já sabe e tem gente que está sabendo disso agora. Sim, eu estou deprimida e não nego - pelo contrário. Acredito que uma das formas mais eficazes de combater essa doença é assumindo que a possui. Tenho a plena convicção de que diversos fatores relacionados a criação, estilo de vida, crenças, experiências e, claro, à organicidade. Eu sempre tive consciência de que algo estava errado, desde muito tempo. Mas, nos últimos tempos, eu vinha somatizando tudo, em qualquer lugar (metrô, casa, lugares públicos, trabalho): taquicardias, quedas bruscas de pressão, crises de labirintite, tremedeiras, dentre outros sintomas. Achava que era "somente" estresse. Aí é que me enganei. Procurei ajuda psicológica e, há alguns meses, venho fazendo terapia. Mas, ainda assim, não foi o suficiente: a minha terapeuta me recomendou procurar um psiquiatra. Eu gelei. Veio aquele preconceito besta na hora: psiquiatra é médico para quem é bipolar, esquizofrênico ou com depressão severa. Imagine, eu não preciso, só a terapia basta. Basta mesmo? Eu vi que, neste momento, não. Fui ao psiquiatra. Confesso que não curti muito, mas acredito que não deva ser lá muito agradável mesmo para qualquer um. Quando o médico me receitou um antidepressivo (leve, mas antidepressivo), gelei de novo. Novamente veio aquela enxurrada de pensamentos preconceituosos do tipo "vai ficar viciada", "não vai ter mais libido", "vai ficar chapada, lesada" etc. No dia seguinte, entrei em contato com amigas que estão passando pelo mesmo problema que eu e com uma amiga muito querida que manja demais de fármacos. Não tem jeito: eu vou tentar o medicamento. Ainda não comprei o remédio, mas vou fazer isso logo. Como não tenho forças para nada no momento, pode ser que o remédio me ajude (por pouco tempo, de preferência). Não tenho forças para agir, mas ainda tenho disposição de pensar coisas como as que mencionei no começo.
Estou me deparando com um importante dilema, contudo, antes de encará-lo, eu preciso de saúde mental em primeiro lugar.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Lampejo
Acabei de revisar esse trecho aqui:
"A consciência é sempre infeliz. [...] Trata-se de uma falta, uma carência, no sentido da Fenomenologia do espírito. A consciência é a tentativa de repor essa falta. A tragédia da consciência é: quanto mais ela sabe, mais ela quer saber."
Ou seja, quanto mais se sabe, mais infeliz?! Acho que é bem por aí mesmo. Porque refletir dói. Pensar dói. Ter consciência, então... Pessimismo? Pode ser, embora todos esses fatores convirjam em um anseio por mudança. [E mudar também pode doer, mas antes a dor da mudança do que a dor de ter a consciência de que não mudou.]
"A consciência é sempre infeliz. [...] Trata-se de uma falta, uma carência, no sentido da Fenomenologia do espírito. A consciência é a tentativa de repor essa falta. A tragédia da consciência é: quanto mais ela sabe, mais ela quer saber."
Ou seja, quanto mais se sabe, mais infeliz?! Acho que é bem por aí mesmo. Porque refletir dói. Pensar dói. Ter consciência, então... Pessimismo? Pode ser, embora todos esses fatores convirjam em um anseio por mudança. [E mudar também pode doer, mas antes a dor da mudança do que a dor de ter a consciência de que não mudou.]
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Em dívidas com este Fustigo
Estava devendo várias fustigadas desde a última postagem, no final do ano passado. Na verdade, estava ME devendo escrever por aqui. Faltou tempo, faltou estímulo, faltou vontade; mas não faltou coisa para dizer por aqui. Nem sei por onde começar.
Da minha última postagem de verdade, há um ano, muita coisa aconteceu.
Da minha última postagem de verdade, há um ano, muita coisa aconteceu.
- Me tornei "Mestre em Língua Alemã" em 1º de abril [parece mentira, mas é a pura verdade], depois de 3 anos de muita ralação, euforia, disforia (ah, a semiótica... mas não é minha especialidade, não!), procrastinação, perrengues, crises, encontros e desencontros acadêmicos etc. e tal. Parabéns para mim, mas minha vida não mudou em nada desde então. Muito pelo contrário [mas isso é assunto para uma próxima].
- Voltei ao "mercado" após dois anos. Achei que isso não fosse acontecer, de verdade. Já estava pensando em virar babá ou coisa do gênero, porque a coisa não estava (está) fácil, não.
- Descobri que tenho crises de labirintite decorrentes de estresse.
- Fiz uma pequena cirurgia de pele para retirar uma espécie de pinta cujo nome me esqueci.
- Enquanto eu atualizava minhas configurações do blog, percebi que, na lista de e-mails, constava o de uma grande amiga que perdi há quase um ano. Ela se foi tão de repente e tão discretamente [como sempre foi a vida toda] que às vezes me pego me lembrando de mandar uma mensagem bem fofoqueira ou um daqueles links com bobeiras no Facebook que costumávamos trocar. Mas a Denize não está mais aqui. E eu ainda não superei a sua partida. Não tive como não me recordar do nosso último encontro antes de sua viagem ao Peru e antes de sua partida definitiva. E também não tenho como não esquecer de sua imagem no nosso último jantar, em um restaurante japonês, feliz com a viagem que faria, com a pós, com o trabalho, com a imagem na UTI 3, 4 dias depois do retorno do Peru, com sua imagem no velório e com a imagem de sua mãe e seu irmão, devastados – imagens das quais nunca me esquecerei, muito provavelmente. Não, aquela não era minha amiga. Eu custava a acreditar. Fiquei em choque por mais de um mês e, ainda hoje, tais imagens vêm à minha mente de repente. Fiquei revoltada [por que justo ela?!], fiquei triste, fiquei mal. Eu que sempre achei tudo meio sem sentido, desde então acho que quase nada faz mais sentido.
- Num desses encontros da vida, conheci uma pessoa que estava procurando alguém para ser sua "cobaia" em seus estudos de coaching, e eu fui a tal cobaia. Foi um processo meio estranho a princípio, mas, após o fim dele, percebo que foi válido em alguns aspectos, como, por exemplo, ter buscado ajuda terapêutica profissional. Comecei há um mês mais ou menos e isso renderá muita coisa por aqui.
Esse último marcador me fez lembrar de algo que estive pensando durante a semana:
Por que sentimos falta/saudade de algo que, outrora, era chato, insuportável? Por que o agora é pior do que o passado? O futuro pode ser pior que o presente? [Eu sempre acho que pode.] Dou alguns exemplos.
No ano passado, eu fui professora de alemão em uma escola. Não gostava de uma coisa de lá [que é comum em praticamente todas as escolas de idiomas], mas, exceto isso, eu sinto muita falta de lá: dos alunos, dos colegas, da estrutura, da proximidade com a minha casa. Na época eu nem ligava muito.
Outro exemplo: ultimamente sinto saudade até de um outro trabalho que tive [e que foi motivo de diversas postagens por aqui]: da cultura organizacional, da estrutura e dos amigos que fiz [exceto da demônia motivo de várias postagens também]; até do meu primeiro estágio estou sentindo saudade ultimamente – a impressão que tenho é de que eu era mais feliz naquela época em que ganhava uma merreca e conhecera muita gente ótima, incluindo meu marido e a Denize, que partiu.
Confesso que estou tentando extrair alguma coisa positiva do presente, mas tá difícil!!! Talvez, quando este presente virar passado, eu veja alguma coisa boa dele.
E finalmente voltei a fustigar.
No ano passado, eu fui professora de alemão em uma escola. Não gostava de uma coisa de lá [que é comum em praticamente todas as escolas de idiomas], mas, exceto isso, eu sinto muita falta de lá: dos alunos, dos colegas, da estrutura, da proximidade com a minha casa. Na época eu nem ligava muito.
Outro exemplo: ultimamente sinto saudade até de um outro trabalho que tive [e que foi motivo de diversas postagens por aqui]: da cultura organizacional, da estrutura e dos amigos que fiz [exceto da demônia motivo de várias postagens também]; até do meu primeiro estágio estou sentindo saudade ultimamente – a impressão que tenho é de que eu era mais feliz naquela época em que ganhava uma merreca e conhecera muita gente ótima, incluindo meu marido e a Denize, que partiu.
Confesso que estou tentando extrair alguma coisa positiva do presente, mas tá difícil!!! Talvez, quando este presente virar passado, eu veja alguma coisa boa dele.
E finalmente voltei a fustigar.
domingo, 17 de novembro de 2013
Período de ausência
A quem lê este blog (e a mim mesma),
Estou há cinco meses sem escrever nada por aqui. Não, eu não abandonei o meu blog. Ainda tenho muito o que fustigar. É que passei por uns momentos bem agitados e difíceis, e, agora, estou me dedicando à redação final de minha dissertação. Não fique chateado. Espero que, a partir do começo de fevereiro, eu volte à "normalidade". Afinal, o que é "normalidade"? Isso daria uma boa postagem, hein!
Saudações fustigantes.
Estou há cinco meses sem escrever nada por aqui. Não, eu não abandonei o meu blog. Ainda tenho muito o que fustigar. É que passei por uns momentos bem agitados e difíceis, e, agora, estou me dedicando à redação final de minha dissertação. Não fique chateado. Espero que, a partir do começo de fevereiro, eu volte à "normalidade". Afinal, o que é "normalidade"? Isso daria uma boa postagem, hein!
Saudações fustigantes.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
A estante do outro lado
Por volta dos meus oito anos, na antiga segunda série, eu fui, pela primeira vez, à biblioteca da escola onde estudava. Uma vez por semana, tínhamos a aula na "sala de leitura", a qual era conduzida pelo professor Luis (sim, um homem, fato raríssimo na educação de nível primário). Até hoje não me esqueço do estilo meio missionário, meio padre, de uma mansidão, de uma paciência e uma tranquilidade na voz, características das quais é impossível esquecer – até porque tais atributos não vi em mais ninguém até hoje.
Aquele fato não teria sido nada demais se o professor Luis não fosse um daqueles mestres que sacam qual é a de seu pupilo desde cedo. Não sei como, a cada aula, ele me recomendava alguma leitura além das que éramos incumbidos a fazer a cada semana – aqueles livros adequados à nossa idade naquela época, como os da Ana Maria Machado, Eva Furnari, Pedro Bandeira, entre outros. Não me recordo exatamente o que ele me dava para ler, só sei que eu o fazia vorazmente. E ficava de olho em uma estante do outro lado da biblioteca: a estante com as obras da Coleção Vagalume e os clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Eu não via a hora de ter a idade "adequada" para pegar um daqueles livros que me chamavam tanta atenção. E o sábio professor Luis sabia dessa minha curiosidade.
Um dia, peguei coragem e fui fuçar naquela estante. Um título me chamou a atenção: "Morte e vida severina". Ao pegar naquele livro, logo fui pensando que se referia a uma mulher chamada Severina. O professor Luis se aproximou, pegou o livro das minhas mãos e disse: "Você ainda não pode tomá-lo emprestado, mas pode dar uma olhada." Em seguida, com seu rosto bondoso, me disse: "Ainda terá muito tempo para ler tudo isso aqui. Vai gostar."
Ao folhear aquelas páginas, o primeiro verso da obra me chamou tanto a atenção que, até hoje, não me esqueço: "Meu nome é Severino. Não tenho outro de pia" Óbvio que não entendi o que aquilo queria dizer, só sei que me marcou. Eu li a obra muito tempo depois, na época do vestibular, porém sem aquele brilho e entusiasmo dos meus oito anos. Mas reconheço o valor dessa obra. Não sou fã ardorosa de poesia, mas esse poema é um petardo.
Além de me estimular a querer ler o que tinha na estante do outro lado, o professor Luis sempre me incentivava a pensar sobre o que eu estava fazendo na escola, o que eu via na TV, o relacionamento com os outros colegas, etc. Inclusive, eu tinha uma rixa com um menino que era um daqueles inteligentes e exibidos. Tínhamos uma disputa acirrada e declarada. Eu, competitiva que sou, sempre chegava com alguma coisa a mais nas aulas, a fim de acabar com o moleque – que detestava, diga-se de passagem. A competitividade é intrínseca a mim, fazer o quê! Voltando ao estímulo ao pensamento, eu sou muito grata à postura que o professor Luis tinha comigo (claro que com os outros ele era ótimo também). Acho que ele, talvez, lá atrás, havia percebido que eu iria me enveredar nesse mundo das letras. E nunca me esqueço daquela estante do outro lado da sala de leitura, que me instigava a descobrir um mundo até então desconhecido. Posso não ser aficionada por literatura atualmente, mas aquela época foi essencial à minha formação.
Aquele fato não teria sido nada demais se o professor Luis não fosse um daqueles mestres que sacam qual é a de seu pupilo desde cedo. Não sei como, a cada aula, ele me recomendava alguma leitura além das que éramos incumbidos a fazer a cada semana – aqueles livros adequados à nossa idade naquela época, como os da Ana Maria Machado, Eva Furnari, Pedro Bandeira, entre outros. Não me recordo exatamente o que ele me dava para ler, só sei que eu o fazia vorazmente. E ficava de olho em uma estante do outro lado da biblioteca: a estante com as obras da Coleção Vagalume e os clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Eu não via a hora de ter a idade "adequada" para pegar um daqueles livros que me chamavam tanta atenção. E o sábio professor Luis sabia dessa minha curiosidade.
Um dia, peguei coragem e fui fuçar naquela estante. Um título me chamou a atenção: "Morte e vida severina". Ao pegar naquele livro, logo fui pensando que se referia a uma mulher chamada Severina. O professor Luis se aproximou, pegou o livro das minhas mãos e disse: "Você ainda não pode tomá-lo emprestado, mas pode dar uma olhada." Em seguida, com seu rosto bondoso, me disse: "Ainda terá muito tempo para ler tudo isso aqui. Vai gostar."
Ao folhear aquelas páginas, o primeiro verso da obra me chamou tanto a atenção que, até hoje, não me esqueço: "Meu nome é Severino. Não tenho outro de pia" Óbvio que não entendi o que aquilo queria dizer, só sei que me marcou. Eu li a obra muito tempo depois, na época do vestibular, porém sem aquele brilho e entusiasmo dos meus oito anos. Mas reconheço o valor dessa obra. Não sou fã ardorosa de poesia, mas esse poema é um petardo.
Além de me estimular a querer ler o que tinha na estante do outro lado, o professor Luis sempre me incentivava a pensar sobre o que eu estava fazendo na escola, o que eu via na TV, o relacionamento com os outros colegas, etc. Inclusive, eu tinha uma rixa com um menino que era um daqueles inteligentes e exibidos. Tínhamos uma disputa acirrada e declarada. Eu, competitiva que sou, sempre chegava com alguma coisa a mais nas aulas, a fim de acabar com o moleque – que detestava, diga-se de passagem. A competitividade é intrínseca a mim, fazer o quê! Voltando ao estímulo ao pensamento, eu sou muito grata à postura que o professor Luis tinha comigo (claro que com os outros ele era ótimo também). Acho que ele, talvez, lá atrás, havia percebido que eu iria me enveredar nesse mundo das letras. E nunca me esqueço daquela estante do outro lado da sala de leitura, que me instigava a descobrir um mundo até então desconhecido. Posso não ser aficionada por literatura atualmente, mas aquela época foi essencial à minha formação.
domingo, 26 de maio de 2013
Status: ocupada
Uma das coisas que mais me irrita nas pessoas ultimamente, e principalmente, na mulherada, é "a correria". Amigos, colegas, ex-colegas, inimigos, sem exceção, estão sofrendo do mal da atualidade: a "falta de tempo". Não poupo ninguém, sinto muito. E o atestado disso é a tal "timeline" do Facebook. Gente falando da falta de tempo como se fosse a coisa mais sensacional do universo, que estar ocupado, com todos os horários preenchidos na agenda, é uma obrigação. Que é legal ficar 10, 12 horas num trabalho (e posta nas redes sociais) e, depois, desse trabalho, ir para uma academia gastar todas as calorias adquiridas depois de metade de um dia inteiro sentado em frente a um computador; ou ir para uma faculdade ou curso livre para tentar aquela promoção ou ganhar uns R$ 100 a mais no final do mês; ou se empanturrar com alguma gordice que vai direto para a "pochete"; ou deixar de encontrar um velho amigo porque ficou até mais tarde ou tem trabalho extra para fazer em casa, mesmo nos finais de semana; ou deixar de ver aquele filme que estreou porque está sem tempo; ou deixar de ler aquele livro ou assistir àquele seriado na TV paga porque está muito cansado; ou deixou de brincar com o filho ou com o sobrinho porque ele não aguentou a espera. Cansou só de ler todas essas situações? Então, eu me cansei de ler e ouvir todas essas chatices.
Por que toda essa urgência em ocupar as 24 horas do dia? E por que expor toda essa "ocupação"? Hoje em dia, "estar ocupado", "viver na correria" virou sinônimo de status e de bem-querença. E quem tem "um tempinho" para fazer o mínimo daquilo que se tem prazer, é considerado desocupado, coitado, até mesmo frustrado. Frustrado? Faça-me o favor! É um frustrado aquele que tem tempo para "não fazer nada", ir ao cinema, à livraria, ao médico? É, o conceito de viver está reverso. Sei que isso pode soar como indireta a alguém que conheço, mas é bem por aí mesmo: na verdade, é uma "direta", para que você reflita sobre o que está fazendo com tua vida. Se estar na correria é bárbaro, saiba que você está perdendo tempo. Contraditório, não?
Engraçado como a vida corrida nos é empurrada goela abaixo pela mídia e pela publicidade, pelo cotidiano influenciado por essas duas esferas – de como é "cool" não ter tempo para nada –, o qual nos faz buscar alternativas a tudo, para "economizar" tempo: do micro-ondas e da máquina de lavar, passando pelo WhatsApp da vida até algo mais absurdo que está por vir em breve. Pois fazer a própria refeição demora, pegar num telefone e ligar para um amigo, um parente ou marcar uma consulta com dentista é um porre, almoçar decentemente está fora de cogitação, etc. Demora para fazer o quê? Ir para as redes sociais e postar que foi almoçar (15 minutos) num restaurante X, que está no trânsito, tudo via Foursquare, que está rolando uma reunião ou uma festinha "da firma", ou que foi ao banheiro? Pelo que vejo nas tais redes, é bem por aí mesmo. Depois reclama que não tem tempo para fazer o trabalho, a monografia, o TCC, o inferno!
Particularmente, se eu gostasse desse tipo de status, eu também encheria a timeline das pessoas com coisas do tipo: "acordei megacedo para ir a uma palestra na USP e participar de uma reunião com minha orientador", "nossa, preciso escrever minha dissertação", "essa correria da dissertação... ai, ainda preciso me inscrever para aquele congresso", "amigos, me desculpem, mas estou ocupada com minha pesquisa", "estou correndo para o aeroporto - universidade X que me espere, uhu!". Sacal. Claro que tenho esses afazeres e muitos outros, mas bom senso é tudo nessa vida – real ou virtual. Mesmo que eu esteja na fase da reta final de minha pesquisa, eu nunca vou deixar de fazer o que preciso ou o que gosto por "falta de tempo": abandonar família, entrar em contato com amigos, ir ao cinema... Não sou desse tipo de mulher "moderna e independente". Independente? Pelo contrário, a tal "mulher-alfa-moderna-independente-masculinizada-que é foda em tudo" é extremamente dependente justamente das facilidades da modernidade e quer sempre se exibir ao dizer que está ocupada, "coitada". Ah, vá, isso foi uma escolha. Problema teu. Uma relação mutualística meio maluca essa entre modernidade e dependência. Falo da mulher, pois, o que mais vejo são as exaltações e alusões à "correria".
Então, minha amiga, inimiga, colega, não aguento mais ouvir esse papinho. Vá viver tua vida como ela merece ser vivida (daí o tipo de merecimento depende do ponto de vista).
Por que toda essa urgência em ocupar as 24 horas do dia? E por que expor toda essa "ocupação"? Hoje em dia, "estar ocupado", "viver na correria" virou sinônimo de status e de bem-querença. E quem tem "um tempinho" para fazer o mínimo daquilo que se tem prazer, é considerado desocupado, coitado, até mesmo frustrado. Frustrado? Faça-me o favor! É um frustrado aquele que tem tempo para "não fazer nada", ir ao cinema, à livraria, ao médico? É, o conceito de viver está reverso. Sei que isso pode soar como indireta a alguém que conheço, mas é bem por aí mesmo: na verdade, é uma "direta", para que você reflita sobre o que está fazendo com tua vida. Se estar na correria é bárbaro, saiba que você está perdendo tempo. Contraditório, não?
Engraçado como a vida corrida nos é empurrada goela abaixo pela mídia e pela publicidade, pelo cotidiano influenciado por essas duas esferas – de como é "cool" não ter tempo para nada –, o qual nos faz buscar alternativas a tudo, para "economizar" tempo: do micro-ondas e da máquina de lavar, passando pelo WhatsApp da vida até algo mais absurdo que está por vir em breve. Pois fazer a própria refeição demora, pegar num telefone e ligar para um amigo, um parente ou marcar uma consulta com dentista é um porre, almoçar decentemente está fora de cogitação, etc. Demora para fazer o quê? Ir para as redes sociais e postar que foi almoçar (15 minutos) num restaurante X, que está no trânsito, tudo via Foursquare, que está rolando uma reunião ou uma festinha "da firma", ou que foi ao banheiro? Pelo que vejo nas tais redes, é bem por aí mesmo. Depois reclama que não tem tempo para fazer o trabalho, a monografia, o TCC, o inferno!
Particularmente, se eu gostasse desse tipo de status, eu também encheria a timeline das pessoas com coisas do tipo: "acordei megacedo para ir a uma palestra na USP e participar de uma reunião com minha orientador", "nossa, preciso escrever minha dissertação", "essa correria da dissertação... ai, ainda preciso me inscrever para aquele congresso", "amigos, me desculpem, mas estou ocupada com minha pesquisa", "estou correndo para o aeroporto - universidade X que me espere, uhu!". Sacal. Claro que tenho esses afazeres e muitos outros, mas bom senso é tudo nessa vida – real ou virtual. Mesmo que eu esteja na fase da reta final de minha pesquisa, eu nunca vou deixar de fazer o que preciso ou o que gosto por "falta de tempo": abandonar família, entrar em contato com amigos, ir ao cinema... Não sou desse tipo de mulher "moderna e independente". Independente? Pelo contrário, a tal "mulher-alfa-moderna-independente-masculinizada-que é foda em tudo" é extremamente dependente justamente das facilidades da modernidade e quer sempre se exibir ao dizer que está ocupada, "coitada". Ah, vá, isso foi uma escolha. Problema teu. Uma relação mutualística meio maluca essa entre modernidade e dependência. Falo da mulher, pois, o que mais vejo são as exaltações e alusões à "correria".
Então, minha amiga, inimiga, colega, não aguento mais ouvir esse papinho. Vá viver tua vida como ela merece ser vivida (daí o tipo de merecimento depende do ponto de vista).
domingo, 28 de abril de 2013
Kamikazes
Somos preparados para morrer. Se não caímos numa imensidão de corrente sanguínea, somos barrados por uma espécie de capuz de borracha, ou – o que é pior – somos bloqueados por um escudo gigantesco o qual, ao trombarmos nele, a morte é certa.
Ultimamente ouvimos muito a respeito de um tal de Tâmisa. Certa vez, os mais velhos e já falecidos me disseram que esse era um nome de um rio. Mas o tal do Tâmisa que conhecemos por aqui há algum tempo é o que forma o escudo de hormônios gigantesco que impede nossa entrada no óvulo da parceira do nosso hospedeiro. O que faz de nosso trabalho extremamente inútil; mas, fazer o quê? Recebemos essa preparação para o suicídio coletivo.
No entanto, o que ainda nos alegra é que existem seres humanos que não se utilizam desses métodos para impedir nossa entrada. Alguns utilizam temporariamente, outros, por convicções religiosas, abolem firmemente; o que nos deixa muito contentes, mesmo se morrermos em combate, pois, pelo menos, estamos tentando atingir nosso objetivo.
Eu espero que a minha vez chegue quando a nossa receptora parar de incluir esse Tâmisa na nossa rotina de trabalho. Se não chegar até lá, morro feliz por ter caído na imensidão da corrente sanguínea e ter tentado cumprir o meu papel.
*Ao vasculhar algumas coisas da minha estante, me deparei com a pasta do curso de escrita criativa que fiz em 2011 (parece que fiz na semana passada, tamanha a velocidade do tempo) e encontrei alguns exercícios bem divertidos, como este. Postarei outros que ficaram bem interessantes (nessa leitura atual).
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